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Transição energética perde fôlego em 2026, diz Fórum Econômico Mundial

Relatório aponta queda global no nível de preparo para energia limpa, apesar de investimentos recordes

18/06/2026 04:00 Gabriel Gama Folha de S. Paulo 0 visualizações há 3 horas
Transição energética perde fôlego em 2026, diz Fórum Econômico Mundial

A transição energética já viveu dias melhores. Um relatório do Fórum Econômico Mundial publicado nesta quinta-feira (18) afirma que o nível global de preparo para implementar energia limpa caiu 0,76% de 2025 para 2026, a maior queda registrada em mais de uma década. A análise indica que o aporte de recursos não é mais suficiente para mover o planeta em direção a uma matriz menos poluente.

A nova edição do chamado Índice de Transição Energética (ETI, na sigla em inglês), produzido em colaboração com a consultoria Accenture, avaliou 120 países conforme 44 indicadores, resultando em notas de zero a cem. A média global foi calculada em 57,3 pontos, avanço de apenas 0,03% em relação ao ano anterior, representando uma estagnação no ritmo da implementação de fontes renováveis.

"Isso sinaliza que o progresso da transição está desacelerando à medida que os riscos de segurança, as restrições de investimento e os gargalos de infraestrutura se intensificam", afirma o relatório.

O ETI é composto por dois subíndices. O primeiro, de desempenho de sistemas, compõe 60% da nota final e envolve indicadores como sustentabilidade, equidade e segurança. Esse conjunto registrou aumento de 0,43% em relação a 2025, apesar de uma queda de 0,9% na área de segurança.

Já o segundo subíndice, de preparo para a transição energética, contribui com os 40% restantes da nota e inclui finanças, compromissos regulatórios e políticos, educação e capital humano, infraestrutura e inovação —justamente os fatores que registraram as piores reduções em 2026, anulando os ganhos com melhorias no desempenho.

"O preparo mostra para onde a transição caminha e, em 2026, essa trajetória se tornou negativa", destaca o relatório.

Em 2025 e 2024, esse subíndice havia subido mais de 2% em relação aos anos anteriores, e a inversão da curva sinaliza uma erosão das condições que sustentam a mudança para as energias renováveis, segundo o Fórum Econômico Mundial.

O subindicador de finanças registrou queda de 1,8% em comparação com 2025, mesmo com o investimento recorde de US$ 2,3 trilhões (R$ 11,6 trilhões) em renováveis naquele ano, segundo dados da Agência Internacional de Energia.

"O problema não é o volume de capital, mas as condições que determinam onde e a que custo ele é aplicado: 75% dos investimentos em energia limpa ainda fluem para poucas economias, enquanto países que devem impulsionar 80% do crescimento futuro da demanda por eletricidade enfrentam custos de financiamento duas a três vezes maiores", afirma o documento.

Na análise da organização, o cenário energético está fortemente influenciado por questões de segurança, com países revisando suas prioridades nacionais diante da guerra no Irã.

O compromisso político e regulatório com a transição registrou recuo de 1,2%, em meio às instabilidades internacionais. O declínio foi visto em economias avançadas, incluindo Estados Unidos, Reino Unido e Holanda, que tiveram redução em políticas públicas, conforme o relatório. Por outro lado, países como a Índia fortaleceram o apoio, principalmente em resposta a preocupações com segurança energética e preços.

Já o setor de inovação teve queda de 1,1%, e a retração no desenvolvimento de tecnologias verdes superou as melhorias em projetos de pesquisa e desenvolvimento, conforme o relatório.

O relatório afirma que a implementação de energia limpa por si só não consegue compensar o enfraquecimento de políticas, financiamento, inovação e infraestrutura. Cresce a discrepância entre a capacidade instalada de energia e o que os sistemas conseguem absorver, com mais de 2.500 GW (gigawatts) em projetos em todo o mundo esperando conexão com linhas de transmissão.

"A transição energética não está retrocedendo, mas está se fragmentando", afirmou Roberto Bocca, diretor do Centro de Energia e Materiais do Fórum Econômico Mundial, em comunicado. "Reduzir a distância entre ambição e execução exigirá bases mais sólidas, incluindo sistemas energéticos mais diversificados e resilientes, expansão mais rápida da infraestrutura e capital capaz de alcançar os mercados onde é mais necessário."

O relatório lista três prioridades para retomar o avanço da transição energética:

  • incorporar segurança e resiliência em sistemas energéticos desde o início dos projetos, não como resposta a crises;
  • acelerar a expansão da rede elétrica e a capacidade de integração;
  • e restaurar a atratividade de investimentos, com regulações estáveis e fluxos de capital direcionados principalmente a países emergentes.

A Suécia se mantém na liderança do ETI pelo terceiro ano seguido, com 75,3 pontos. Finlândia (74,1), Dinamarca (72,6), Estônia (70,9) e Noruega (70,5) completam as cinco primeiras posições.

O Brasil aparece na 17ª colocação, com 66,4 pontos, e segue como líder da transição na América Latina. O país fica acima dos EUA (65,9), mas atrás da China (66,9) e do Reino Unido (68,2).

O Fórum Econômico Mundial calcula redução de 4% no preparo da economia brasileira para a transição energética e aumento de 1,2% no desempenho de sistemas. Como resultado, o índice geral nacional teve queda de 0,8% em relação a 2025.

20 melhores notas

1º - Suécia (75,3)
2º - Finlândia (74,1)
3º - Dinamarca (72,6)
4º - Estônia (70,9)
5º - Noruega (70,5)
6º - Suíça (70,2)
7º - Letônia (70)
8º - Áustria (69,7)
9º - Alemanha (69,6)
10º - França (68,3)
11º - Reino Unido (68,2)
12º - Israel (67,5)
13º - Holanda (67,4)
14º - China (66,9)
15º - Portugal (66,7)
16º - Islândia (66,6)
17º - Brasil (66,4)
18º - Romênia (66,1)
19º - Estados Unidos (65,9)
20º - Chile (65,8)

20 piores notas

101º - Senegal (49,9)
102º - Kuwait (49,7)
103º - Zâmbia (49,5)
104º - Tanzânia (49,3)
105º - Irã (48,8)
106º - Guatemala (47,9)
107º - Zimbábue (47,7)
108º - Brunei (47,3)
109º - Venezuela (47)
110º - Nicarágua (46,9)
111º - Nepal (46,5)
112º - Etiópia (46,4)
113º - Trindade e Tobago (46,3)
114º - Moçambique (46,1)
115º - Honduras (45,9)
116º - Mongólia (45,3)
117º - Iêmen (45,3)
118º - Jamaica (43,6)
119º - Botsuana (41,8)
120º - República Democrática do Congo (39,8)

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