Por que falamos mal dos outros?
Estudo de Oxford mostra que humanos passam até dois terços do tempo conversando sobre quem não está presente
Atire a primeira pedra quem nunca cedeu à tentação de falar mal de alguém ou, no mínimo, dar corda para quem despeja informações ácidas sobre outras pessoas. Fofocar é parte da natureza humana e praticamente todo mundo sucumbe a esse "vício" com mais ou menos frequência.
De acordo com um estudo da Universidade de Oxford, dedicamos até dois terços do nosso tempo batendo papo às pessoas que não estão presentes. Boa parte dessas conversas tem um teor neutro. Mas, quando envolvem julgamentos, a tendência é que pesem mais para o lado negativo. Por quê? Será que dá para evitar falar mal dos outros?
Não é só maldade
A fofoca está tão ligada à natureza humana que teve até um papel na evolução da espécie, como forma de passar informações adiante. No passado, ajudava a identificar quem era confiável no grupo e quem agia de forma desonesta ou não cooperava, por exemplo.
Do ponto de vista cerebral, fazer —ou ouvir— uma fofoca ativa nosso mecanismo de recompensa, despejando no cérebro substâncias relacionadas ao prazer. Por isso, tem essa conotação meio "viciante".
Falar mal dos outros também pode ajudar a fortalecer os laços dentro de um grupo. É bonito? Não. Mas quando pessoas compartilham opiniões negativas sobre alguém, encontram pertencimento —quem nunca se aproximou de um colega de trabalho assim?
No livro "Sapiens: Uma Breve História da Humanidade", o historiador Yuval Noah Harari argumenta que a fofoca ajudou os primeiros Homo sapiens a formarem grupos maiores e mais estáveis.
Sua ideia se apoia na tese do famoso antropólogo e psicólogo britânico Robin Dunbar, que foi além: para ele, a fofoca substituiu o "grooming" —ato de se limpar mutuamente, comum em primatas— como principal forma de criar laços sociais.
Fofocar pela atenção
Falar mal de alguém ainda é uma forma de controlar a atenção do outro —algo difícil em tempos nos quais parece que ninguém mais sabe ouvir, seja pelo excesso de estímulos digitais, seja pelo ritmo acelerado da vida.
Você pode tanto atrair os holofotes ao dizer coisas maliciosas sobre terceiros, como usar esse "recurso" para desviar o foco dos seus próprios aspectos negativos.
As redes sociais elevaram a fofoca a um novo patamar. Nunca foi tão fácil observar e julgar a vida alheia, tanto de famosos como de pessoas anônimas que conhecemos.
Essa exposição constante também intensifica a comparação e, nesse cenário, diminuir o outro pode funcionar como um atalho para se sentir melhor. Além disso, o ambiente digital também interfere no tom e na privacidade da fofoca, aumentando a probabilidade das coisas saírem do controle.
Alvos favoritos
De acordo com o que o psicanalista Christian Dunker explicou em um vídeo em seu canal no YouTube, criticar os poderosos é uma resposta dos que estão sendo oprimidos. Ou seja, falar mal do governo, dos mais ricos, das celebridades ou do chefe surge como uma tentativa de equilibrar as relações de poder.
No entanto, é preciso lembrar que a fofoca também pode conter crueldade, propagar preconceitos, alimentar discursos de ódio e até ser enquadrada em crimes como calúnia, injúria e difamação.
Em casos extremos, acabam tendo consequências duradouras: demissões, términos de relacionamentos e desenvolvimento de quadros depressivos, por exemplo. Essas repercussões se tornam ainda mais sérias em um mundo no qual as informações se espalham em um piscar de olhos e tomam proporções antes inimagináveis.
Momento de reflexão
Antes de falar mal de alguém, vale exercitar a compaixão. Em um texto para Psychology Today, a psicóloga Hannah Rose conta que, sempre que sente aquela pontada interna de adrenalina ao estar prestes a fazer um comentário ácido, se faz três perguntas: "Isso é verdade? É bom? É útil?". Se a resposta para alguma delas for negativa, ela tenta —nem sempre consegue, e tudo bem— se segurar e ficar calada.
Fofocar também pode ser um tiro no pé, tanto nas relações pessoais quanto no trabalho. E, para isso, você nem precisa ser quem dá início aos comentários negativos só endossar ou repassar já pode gerar problemas.
Além disso, é mais difícil confiar e se abrir com alguém que está sempre falando mal dos outros. Se a pessoa critica todo mundo pelas costas, qual a chance de não estar fazendo o mesmo sobre você?
Quem fofoca demais ainda pode acabar prisioneiro da própria língua. O medo do que os outros vão comentar pode se tornar um freio, impedindo atitudes espontâneas e naturais.
Por isso, se não for trazer nada de bom para ninguém, quase sempre é melhor respirar fundo e deixar quieto.