Veteranos do “60 Minutes” saem em defesa do programa
Um ex-produtor do programa norte-americano lança um apelo público para que CBS mantenha independência editorial. Leia no Poder360.
Depois que a CBS News demitiu a equipe de liderança e vários correspondentes do principal programa de notícias dos EUA, o “60 Minutes”, co-redigi uma carta aberta a David Ellison, CEO da Paramount-Skydance, empresa controladora da CBS, argumentando que “a demissão em massa da equipe editorial, sem um compromisso público de manter os valores, padrões e tradições deste programa, coloca em risco o legado do ‘60 Minutes’”.
A carta foi assinada por várias dezenas de ex-produtores da rede, bem como pelos ex-correspondentes do “60 Minutes” Dan Rather, Steve Kroft e Katie Couric, além de proeminentes documentaristas, escritores e celebridades.
“O que está em jogo”, argumenta a carta, “não é apenas o futuro do programa de jornalismo televisivo mais importante e duradouro deste país, mas o futuro da imprensa livre e independente nos Estados Unidos”.
O drama que se desenrola na CBS News é o que acontece quando a filosofia de “agir rápido e quebrar paradigmas” colide com uma instituição centenária que foi fundamental para a criação do gênero do jornalismo televisivo.
Os bastidores do caos no “60 Minutes” e desta campanha de cartas oferecem uma visão de algo maior: como a consolidação corporativa, a alienação do público e a identidade política se tornaram tão entrelaçadas na mídia americana que a linha entre julgamento editorial e apaziguamento ideológico não é mais clara.
O problema começou no ano passado, no domingo antes do Natal, quando estava prevista a exibição de um episódio do programa “60 Minutes” com entrevistas a imigrantes venezuelanos que haviam sido deportados para a prisão de segurança máxima Cecot, em El Salvador.
Depois que a reportagem foi anunciada e divulgada, a recém-empossada editora-chefe da emissora, Bari Weiss, a retirou do ar, alegando que “não estava pronta”, apesar da revisão minuciosa pela qual já havia passado pelas mãos de veteranos do programa. Seu principal argumento foi que ninguém do governo Trump aparecia na reportagem —embora o correspondente e o produtor tivessem claramente se esforçado para obter comentários, que foram negados pelo governo.
A medida foi amplamente vista como um aviso ao programa de notícias de 57 anos, um exercício sem precedentes de controle editorial por parte de Weiss, uma comentarista conservadora contratada pela CBS News sem experiência em televisão. Após uma breve passagem como colunista no The New York Times —do qual ela saiu alegando que sua independência editorial estava sendo restringida—, Weiss fundou o The Free Press, um site de notícias e opinião digital de direita heterodoxa.
Quando a Skydance comprou a Paramount e sua subsidiária CBS, a empresa também adquiriu o site de notícias de Weiss por US$ 150 milhões e a trouxe para liderar uma reformulação da divisão de notícias. Suspender a reportagem sobre a Cecot foi seu 1º passo ousado. A reportagem acabou indo ao ar quase um mês depois. A correspondente Sharyn Alfonsi teve de gravar uma nova introdução e conclusão incluindo declarações da Casa Branca e do Departamento de Segurança Interna que não constavam na versão original.
Logo depois da notícia da retirada da reportagem ter vindo a público, meu telefone tocou. Era Lowell Bergman, o lendário ex-produtor do “60 Minutes”, cuja própria batalha contra a CBS News durante uma aquisição corporativa anterior se tornou tema do filme “O Informante”, sobre a luta na década de 1990 para levar ao ar uma entrevista polêmica com um denunciante da indústria do tabaco, apesar das preocupações da emissora de que uma ameaça de processo judicial pudesse prejudicar a venda da CBS na época. Bergman percebeu as semelhanças imediatamente. “O que vamos fazer a respeito?”, perguntou ele.
Eu também tinha sido produtor do “60 Minutes” e percebia algumas semelhanças por conta própria. Como cidadão húngaro que começou minha carreira em Budapeste logo depois do fim do regime soviético, eu conhecia Viktor Orbán muito antes de sua transformação em autocrata. Em 2012, quando ele começou a desmantelar o panorama da mídia independente do país, senti-me compelido a escrever para ele, lembrando-o de que “uma mídia vibrante é um componente vital do tipo de sociedade livre e aberta que defendia nos primeiros dias”. Nunca imaginei que sentiria essa mesma compulsão em relação a uma instituição de notícias norte-americana.
Juntos, durante a semana do Natal, Bergman e eu redigimos uma carta a Ellison, alertando que a interferência de Weiss na reportagem sobre a Cecot “indica uma falha na supervisão editorial e corre o risco de criar um precedente perigoso em um país que tradicionalmente valoriza a liberdade de imprensa”. Em poucas horas, a carta já contava com dezenas de assinaturas de figuras proeminentes da mídia.
Então, o New York Post noticiou erroneamente que funcionários atuais —e não ex-funcionários— da CBS News haviam organizado a campanha, dando a entender que um golpe interno estava se formando dentro da emissora. A direção do “60 Minutes” nos pediu para recuar, acreditando que poderia resolver a interferência editorial internamente, sem o ruído adicional de uma campanha pública. Retiramos o formulário de assinaturas do ar —mas não antes de nossa carta ter sido invadida por trolls, com comentários como “Esta carta é idiota” e “Eu apoio Bari!”.
Enviei um e-mail a cada um dos signatários críticos com um convite para conversar, e muitos aceitaram a proposta. O que descobri me surpreendeu. Eles não eram os partidários raivosos que eu esperava. Eram, em sua maioria, americanos inteligentes e moderados que sentiam que a grande mídia já não refletia seus valores.
Um deles me disse que havia crescido na “era de Walter Cronkite”, quando podia confiar no que ouvia da CBS, mas que essa época já havia ficado para trás há muito tempo. Ele admitiu que não era fã de Donald Trump, mas sentia que a emissora havia se inclinado tanto contra o presidente que se tornara abertamente hostil. “O que acho que Ellison e Weiss estão tentando fazer é buscar um pouco mais desse equilíbrio”. Outra disse que estava frustrada com a cobertura “politicamente correta” nas notícias, mas se sentia igualmente perdida no mundo dos ideólogos de direita como Nick Fuentes e Candace Owens. “Não sei mais em que acreditar”.
Vários mencionaram que sua simpatia por Weiss se baseava em seu apoio inabalável a Israel e que acreditavam que a CBS News havia demonstrado parcialidade anti-Israel em sua cobertura do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e da invasão subsequente de Gaza.
Meu antigo chefe, Don Hewitt, construiu o “60 Minutes” com base na premissa de que os americanos mereciam ser surpreendidos, desafiados e, ocasionalmente, incomodados pelo que viam nas noites de domingo —de que um público em massa era capaz de lidar com complexidade, nuances e verdades inconvenientes.
As pessoas que reagiram negativamente à nossa carta, apesar de toda a sua frustração, não estavam erradas ao afirmar que algo se perdeu na relação entre o jornalismo tradicional e o público que outrora servíamos. Mas a resposta a essa perda não é um editor-chefe trazido da imprensa de opinião para afastar os jornalistas que se opõem. É um compromisso renovado exatamente com o tipo de jornalismo que tornou o “60 Minutes” grande em 1º lugar.
A direção do programa nos pediu no ano passado para confiar que conseguiria defender essa ideia internamente, mas o que Weiss fez foi o que editores com mentalidade corporativa costumam fazer quando a resistência interna se mostra inconveniente: ela esvaziou a sala.
Depois do “massacre da 5ª feira negra” —como o correspondente Scott Pelley, agora demitido, descreveu a recente limpeza na liderança do programa—, Bergman e eu revisamos e reativamos nossa carta e seguimos em frente com nosso contato direto com Ellison. O que pedimos a ele não era complicado:
“A aquisição da CBS News veio acompanhada da exigência legal de servir ao interesse público, evitar interferências políticas e manter a independência editorial. A confiança institucional não se transfere por meio da propriedade. … Pedimos que você envie uma mensagem clara à sua equipe, aos seus telespectadores e ao público em geral de que respeita e valoriza a independência editorial e a liberdade de imprensa.”
Cerca de 6 décadas do programa “60 Minutes” foram construídas com base em uma obrigação implícita e sagrada para com o público. Essa obrigação recai agora sobre David Ellison. No último domingo, ele finalmente quebrou o silêncio com uma ligação privada, segundo relatos, para Lesley Stahl, uma das 3 correspondentes que optaram por permanecer depois da demissão em massa.
Essa não foi a promessa pública que havíamos solicitado, mas é mais do que a liderança da emissora ofereceu até o momento e, talvez, um 1º passo para tranquilizar o público de que a CBS News retornará ao seu compromisso fundamental com o interesse público, e não com o momento político.
Peter W. Klein é ex-produtor e executivo de noticiários de TV e fundador do Global Reporting Centre.
Texto traduzido por João Lucas Casanova. Leia o original em inglês.
O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.