Uma festa de aniversário incomum
Em 6 de novembro, nasceu gente tão díspar quanto Robert Musil e Emma Stone
O que a atriz Emma Stone, o escritor Robert Musil e o músico Ray Conniff têm em comum? Não é a popularidade, pois Musil está meio esquecido, infelizmente. Tampouco é prestígio —nesse quesito, Conniff, rei da música cafona de elevador, destoa. É algo mais simples: os três nasceram no mesmo dia —6 de novembro— em anos obviamente distantes.
Supondo que fosse possível burlar as coordenadas de espaço e tempo para uma festa reunindo os três, o que beberiam? Ela provavelmente estaria com um old fashioned na mão, preparado por Ryan Gosling (chamado às pressas para ser o bartender), como no filme "Amor a Toda Prova". Conniff chegaria todo pimpão com vinho e rosas para a atriz, sacolejando-se no ritmo de "Bésame Mucho". Ela agradeceria, jogaria o buquê num sofá e voltaria a dançar, engolindo os convidados com seus olhos gigantes.
Sem perder a pose, o maestro kitsch tomaria um meia de seda ou um hi-fi, em homenagem aos bailinhos que embalou no Brasil.
Musil circularia meio perdido, atrás de Kafka ou Rilke para um papo, como nos velhos e bons cafés vienenses. Sua bebida seria certamente um spritzer e, para isso, perguntaria a Gosling se ele teria vinho branco austríaco. O ator aproveitaria para dizer: "sou fã de ‘A Montanha Mágica’", sem notar a gafe, já que o livro é de Thomas Mann.
A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, também aniversariante, responderia quando lhe perguntassem o que gostaria de tomar: "Ah! A harmonia e a força das coisas naturais". Ao ouvir o verso de "Reza da Manhã de Maio", o prodígio do easy listening iria ajeitar a gravata-borboleta e dizer, com objetividade estadunidense: darling, não é melhor um drinque ou dois? (Parte da letra de "Something Stupid"). Atrás dele, cinco cantoras com vestidos cor-de-rosa fariam o indispensável shabadabada.
Mas onde foi parar o desenturmado Musil? Ah, ali, ao lado de Stone, alma da festa. O que estariam conversando? Quem sabe ele tentasse explicar seu "O Homem sem Qualidades", um dos romances fundamentais do século 20? Ou dissesse: "você parece aberta às infinitas possibilidades do ser". Ela responderia como a Bella Baxter de "Pobres Criaturas": "Talvez; só sei que tô achando fascinante estar viva".
Sally Field, outra nascida em 6 de novembro, chegaria no fim da festa. A essa altura, Andresen estaria atrás do balcão do bar, "suspensa na surpresa do instante", preparando um dry martini. Stone e Gosling tomariam conta da pista, lembrando as coreografias de "La La Land". Field, a inesquecível atriz de "Norma Rae", se dobraria de rir. De uma poltrona, este colunista tentaria não ser notado —e anotaria tudo.
O Bella martini foi criado especialmente para "Pobres Criaturas". Cada ingrediente remete a uma cidade mostrada no filme. Gim —Londres; vermute seco —Paris; pisco —Peru (apenas mencionado); Porto —Lisboa; água de rosas —Alexandria.
Bella martini
- 50 ml de gim
- 15 ml de pisco
- 7,5 ml de vinho do Porto branco
- 7,5 ml de vermute seco
- 2 lances de água de rosas
Misture tudo com gelo e coe para uma taça martini.
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