Um político veterano e um macho escroto entram num debate
Custei a entender por que as caras que Flávio fazia ao fundo enquanto Lula falava me tiravam tanto do sério
Eu não consegui assistir ao debate de domingo (18). As reações que meu corpo teve ao ver a postura de Flávio Bolsonaro foram físicas demais e, pela minha saúde e pela integridade física do meu aparelho televisor que eu estava prestes a atirar no chão, não terminei o segundo bloco.
Como mãe de duas crianças de 7 e 4 anos, me tornei expert em tentar fazê-los compreender suas emoções. Numa fase em que minha filha andava com um temperamento mais explosivo, lhe disse que identificar a raiva era muito fácil porque a raiva se sente no corpo, sobe pela barriga e entala no peito antes de explodir pelo corpo em gritos, tapas, pontapés e afins.
A razão pela qual descrevemos os sentimentos para crianças é para que possam identificá-los e pedir ajuda antes que a explosão aconteça. Mas, no domingo, fui eu que precisei identificar e administrar o ódio que senti diante daquele teatro televisionado patético.
Não foi fácil. Atribuí o incômodo inicial à ansiedade inerente à importância de cada um desses confrontos para o futuro do Brasil. Custei a entender por que não queria nem olhar para a tela ou por que as caras que Flávio fazia ao fundo enquanto Lula respondia a alguma pergunta me tiravam tanto do sério.
Só consegui entender por completo o suco amargo de sensações quando, na manhã seguinte, vi milhares de mulheres relatarem terem sentido a mesma coisa. O mal-estar coletivo que nos acometeu não foi uma coincidência. Ele tem uma origem que nos é comum, uma revolta familiar demais e que nos acostumamos a engolir. A revolta de ter ao seu redor, numa sala de aula, numa reunião de trabalho, numa mesa de bar ou no próprio sofá de casa, um macho escroto.
Não me refiro a qualquer homem, me refiro a uma espécie de homem que Flávio incorpora com perfeição. Aquele que desdenha dos outros, especialmente se os outros forem mulheres. Ele caçoa de suas palavras, foge de suas perguntas, ironiza seus argumentos e ainda debocha das suas reclamações diante de tamanho desrespeito. Tudo isso com um sorrisinho canalha no rosto de quem sabe muito bem que jogo está jogando e o faz justamente com o objetivo de te desestabilizar.
Todas nós já tivemos um chefe assim, um colega assim, um namorado assim. Para o macho escroto não há debate, apenas discurso. Não há confronto de ideias, apenas demonstração de poder. Não há compromisso com a verdade, apenas com a vitória sobre o outro.
O que aconteceu na Band, no domingo, não foi um debate. Foi um gatilho para milhares de mulheres. Ver Flávio atrás de Lula fazendo caras e bocas, desdizendo o que seu oponente dizia, fugindo de suas perguntas e distorcendo a verdade até que ela se torne irreconhecível. Há um privilégio em assistir àquela cena e enxergar apenas uma tática eleitoral.
Voltando à educação dos meus filhos, penso sobre os conselhos que lhes dou e sobre as diferenças que um filho homem e uma filha mulher demandam. Uma delas é, sem dúvida, ensiná-la a identificar o macho escroto e saber se impor e se defender. Ao menino, a missão de não permitir que ele se torne um deles. Mas essas conversas não acontecem num vácuo. O mundo também educa. As vozes que aparecem na televisão, os ídolos que surgem no YouTube e, sim, os homens e mulheres que governam a nação.
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