Revolta contra a arrogância da extrema direita começou no Brasil
Uma coisa é um campo político ser arrogante; outra é o público entender a arrogância e punir o campo político por ela
Durante anos a esquerda foi muito acusada de arrogância moral e intelectual. Não era sempre sem razão, e principalmente na época dos blogs e do início das redes sociais, a direita faturou em cima dessa percepção. Depois, os papéis inverteram-se: foi a direita que se tornou arrogante, e a extrema direita que se tomou de uma arrogância extrema.
Só que, como tantas vezes acontece, demora um tempinho até a opinião pública se atualizar. A extrema direita era de certa forma imunizada à crítica de arrogância pela sua fanfarronice, que passava por genuinidade. Daí os políticos e influenciadores dessa área política começaram a usar a arrogância como forma de chamar a atenção e captar eleitorado.
Desde Donald Trump inventando nomes para os adversários até Jair Bolsonaro imitando doentes com Covid, a extrema direita era arrogante e ganhava com isso.
Até agora. Nesta eleição brasileira, vimos pela primeira vez uma inversão na percepção geral. Entre o primeiro e o segundo turno, Flávio Bolsonaro deu a vitória por garantida, decidiu fazer da revisão constitucional a sua bandeira, nomear ministros e de forma geral agir como se tivesse já ganhado.
Ainda assim, estou a crer que sem o momento no debate em que Flávio Bolsonaro faz menção aos nove dedos de Lula, e este responde, o eleitorado poderia não ter respondido como respondeu. Uma coisa é um campo político ser arrogante; outra é o público entender essa arrogância e punir o campo político por ela.
Por que falo disso numa coluna que, em geral, é de temas internacionais? Porque me parece que as eleições brasileiras retomam e reforçam uma tendência que até agora era só fragmentária: há uns meses, Viktor Orbán perdeu na Hungria, e neste fim de semana, Aleksandar Vucic perdeu na Sérvia. Mas a derrota de Flávio Bolsonaro, precedendo em poucos dias as eleições para o Congresso dos EUA, acaba por ter uma faceta de inflexão política global.
Para isso contribuiu muito a aprendizagem que a esquerda fez da utilização das redes sociais, em particular sob o comando de André Janones, que certamente vai se tornar estudo de caso ao nível mundial. Janones, junto com o seu exército digital de 10 milhões, conseguia não incentivar a partilha das publicações da extrema direita, ao passo que conseguiu que debates que foram mais equilibrados nas TVs fossem ganhos pelos cortes que viralizavam nas redes.
Há um diálogo entre o próprio Janones e Lula em que o deputado e influenciador afirma que a eleição já está ganha ao mesmo tempo que afirma não ter "dotes proféticos", mas depois acrescenta: "Só há uma maneira de a eleição não estar ganha, que é vocês acreditarem em mim quando eu digo que ela está ganha."
Curiosamente, esta formulação se aproxima muito da definição dos dotes proféticos num livro da Bíblia que tem um nome parecido com o de Janones —o de Jonas. O profeta Jonas é aquele que não quer aceitar dizer aos ninivitas que se arrependam com medo de que eles o façam e assim não sejam castigados por Deus. O dom da profecia não é o de adivinhar, mas de persuadir.
E para que volte a funcionar na semana que vem, nos EUA, será essencial humildade dos democratas na hora de lembrar a arrogância dos autoritários.
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