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A nova fronteira das pequenas usinas nucleares

Projeto usa sódio líquido para resfriar reator, o que reduz custos e riscos

A nova fronteira das pequenas usinas nucleares

Depois de um longo período de retraimento da indústria nuclear, provocado pelo acidente de Fukushima, o tema voltou à pauta, essencialmente devido ao interesse por fontes energéticas que não emitam gases de efeito estufa, como as usinas hidrelétricas, as solares e as eólicas, mas que sejam despacháveis (produzam energia quando o operador do sistema determinar), como as hidrelétricas e as termelétricas.

O foco agora é o desenvolvimento de pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês), fabricados em escala industrial. A ideia é diminuir o custo por MW, o prazo de construção e a complexidade regulatória. Um bom exemplo é o projeto da usina de energia de Kemmerer, no Wyoming (EUA), da TerraPower, empresa cofundada por Bill Gates.

Em vez de usar água sob altíssima pressão para resfriar o reator, a usina utilizará sódio líquido, que absorve calor de forma eficiente e opera sob pressão atmosférica normal. Eliminam-se assim o risco de explosão, devido à sobrepressão da água, e a necessidade de construir a cúpula gigantesca de contenção, típica das usinas tradicionais. A estimativa é que a economia na construção civil vá ser da ordem de 50%.

A instalação contará com um sistema integrado de armazenamento térmico por sais fundidos. Essa "bateria térmica" permitirá elevar a produção de 345 MW (potência nominal do reator) para até 500 MW por mais de cinco horas durante os horários de pico, ajustando a oferta às oscilações de usinas eólicas e solares na rede.

O projeto está sendo construído ao lado da central a carvão de Naughton, em fase de desativação. A nova instalação utilizará as linhas de transmissão e os pontos de captação de água existentes, além de requalificar a força de trabalho local para a operação nuclear.

Em março de 2026, a autoridade reguladora dos EUA (NRC) concedeu a licença de construção do reator, abrindo caminho para testes operacionais até o final da década.

Há ainda um obstáculo para a materialização do projeto: o desenvolvimento da tecnologia capaz de produzir o combustível Haleu (urânio enriquecido a 15,38% de U-235) de forma economicamente viável. Como a oferta comercial desse insumo tem sido monopolizada pela Rússia, há uma corrida nos EUA para viabilizar a produção doméstica.

Recentemente, em agosto de 2026, a startup norte-americana Actinide anunciou sucesso na obtenção de Haleu. Porém, ainda é preciso confirmar se a tecnologia adotada será economicamente competitiva em escala industrial.

Caso seja, esse tipo de usina constituirá excelente opção para a inserção da geração nuclear em redes elétricas com alta participação de fontes renováveis, como é o caso do Brasil.

Provavelmente a maioria dos países com sistema elétrico assemelhado limitar-se-á a importar o reator e o combustível. O Brasil, contudo, dispõe de expressivas reservas de urânio e domina a tecnologia de ultracentrifugação —o caminho mais consolidado para o enriquecimento isotópico.

Em vez de passivos importadores, possivelmente teremos condições tecnológicas e industriais para produzir o Haleu, garantindo não apenas a autonomia no suprimento de novos reatores nacionais mas também posicionando o Brasil como fornecedor estratégico dessa nova fronteira do mercado nuclear global. Com a palavra, os especialistas em enriquecimento de urânio.

Fonte original Publicado originalmente por UOL
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