Campo Grande, MS | 26°C | 26 de Outubro de 2026
AO VIVO 00:15
Economia

Real e ativos brasileiros têm forte desvalorização com vitória de Lula

Contrato futuro da moeda brasileira e índice que representa cesta de ações do país despencam

Real e ativos brasileiros têm forte desvalorização com vitória de Lula

Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, ativos brasileiros têm forte desvalorização nas negociações do mercado futuro nos Estados Unidos.

Desde o início da apuração, o contrato futuro do real mais ativo, com vencimento em novembro, tem forte queda. Por volta das 21h52, ele recuava 10,12%. Já o EWZ, um ETF (fundo de índice) que representa as ações brasileiras nos Estados Unidos despencava 18,36%.

As ações da Petrobras listadas nos EUA recuavam 12,92%. O Itaú Unibanco se desvalorizava 12,72% e o Bradesco, 12,29%. Já a Vale recuava menos, 3,95% e Ambev, 0,61%.

  • Acompanhe na Folha em tempo real a apuração do 2º turno

Analistas esperam que a euforia que levou o dólar a cair abaixo de R$ 5 e a Bolsa a superar a marca histórica de 200 mil pontos dê lugar a uma reversão desses movimentos.

Há o temor, inclusive, de um possível circuit breaker na Bolsa brasileira, ou seja, de uma queda superior a 10% do Ibovespa, índice de referência do mercado acionário. A última vez que este mecanismo de segurança que paralisa negociações por 30 minutos foi ativado foi em março de 2020, quando o mercado repercutia os efeitos econômicos da pandemia.

"O resultado contraria o cenário-base e entrega a maior surpresa desta eleição com a vitória de Lula. O mercado não estava posicionado para este desfecho. Amanhã devemos passar por um ajuste severo de preços na abertura", diz Felipe Balassiano, diretor do ASA.

Desde a confirmação das candidaturas à Presidência de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em agosto, a Bolsa brasileira acumulou alta de 15,3%

Segundo especialistas, com o presidente reeleito, aumenta o temor de falta de ajustes na trajetória das contas públicas, o que tende a desvalorizar o real ante o dólar.

A expectativa de menor controle fiscal tende a elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar o governo, pressionando a curva de juros. Taxas mais altas, por sua vez, podem encarecer o crédito para as empresas e piorar as perspectivas de lucro, pressionando o mercado acionário.

Nos grupos de trocas de mensagens da Faria Lima, que reúnem membros de gestoras e analistas, por exemplo, o clima foi de final de campeonato ao longo de todo domingo. A maioria entendeu que a prorrogação do horário de votação poderia levar a questionamentos sobre a validade do segundo turno.

No entanto, quando Flávio ultrapassou Lula no começo da apuração, a comemoração foi generalizada, com memes festivos e postagens de "agora foi".

Quando Lula voltou a ultrapassar Flávio, o clima passou a ser de incredulidade. Inúmeros comentários lembravam a unanimidade das pesquisas em favor do candidato do PL. Muitos qualificaram como inverossímil que a virada pudesse se sustentar.

Expressões como "a vaca vai para o brejo" e análises preconizando um "ajuste brutal" nesta segunda-feira viraram a tônica das conversas.

Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, a vitória do presidente Lula deve gerar uma volatilidade expressiva no câmbio e na curva de juros futura, com possível estresse no mercado de títulos públicos. "A segunda-feira pode ser bastante volátil, porque haverá uma correção de rota e de ânimo do mercado", diz.

Segundo ele, o cenário sob Lula deve ser marcado por volatilidade cambial, inflação persistente e menor margem para o Banco Central cortar os juros. "O ponto mais importante é que, mesmo com esse pessimismo prevalecendo no curto prazo, é preciso observar como as pautas econômicas vão avançar no médio prazo. Após a eleição de 2022, houve um certo pessimismo com o retorno de Lula. Mas 2023 foi positivo para a Bolsa após a aprovação do novo arcabouço fiscal, um dos primeiros projetos de regras fiscais apresentados pelo PT".

Para Luiz Ferreira, diretor do banco suíço EFG para as Américas, as primeiras impressões do resultado da eleição indicam que o presidente eleito Lula vai enfrentar uma oposição forte no Congresso e terá de lidar com pressões fiscais, o que deve se refletir nos ativos brasileiros.

"O primeiro impacto deve ser uma volta das taxas de juros aos patamares anteriores ao resultado do primeiro turno. Também é possível esperar uma alta do dólar e a devolução de parte dos ganhos da Bolsa. Não por acreditar que o Brasil vai enfrentar um processo recessivo —é muito cedo para falar disso—, mas pela perspectiva de continuidade dos déficits e dos gastos elevados, além da dificuldade de governabilidade".

O mercado financeiro também repercute a judicialização do pleito, com a prorrogação do horário de votação por determinação do ministro Cristiano Zanin (STF). Segundo investidores e analistas, a medida abre margem para insegurança jurídica, independente de quem saia vitorioso.

"A prorrogação da votação acrescentou uma camada de incerteza institucional a uma eleição que já concentra expectativas importantes sobre a condução da economia. Isso não permite antecipar uma anulação ou uma disputa judicial prolongada, mas coloca esse risco no radar dos investidores", diz Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos.

Ele afirma ainda que, se a contestação ganhar força e mantiver dúvidas sobre o desfecho eleitoral, a tendência é de maior procura por proteção em dólar, pressão de alta nos juros futuros e maior volatilidade na Bolsa.

"Nesse cenário, investidores podem adiar decisões até terem mais clareza sobre a estabilidade política e a capacidade do próximo governo de executar sua agenda. A reação dependerá da margem final de votos, do conteúdo de eventuais questionamentos e, principalmente, da postura dos candidatos e das instituições. Um resultado reconhecido, acompanhado de respostas rápidas e transparentes, pode reduzir bastante essa tensão", completa.

Para Marcelo Castro, sócio-diretor da Iepê Investimentos, pode haver uma ação no próprio STF, mas não novas eleições. "Toda essa confusão que o TSE causou só vai servir para o lado perdedor arrumar uma desculpa, seja que lado for", diz, que vê potencial prejuízo para o mercado.

William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, diz que ainda é cedo para dimensionar a desvalorização dos ativos brasileiros, mas os sinais apontam para uma queda expressiva, revertendo boa parte dos ganhos registrados após o primeiro turno. Alves também destaca a possibilidade de judicialização do segundo turno e afirma que "incertezas políticas, jurídicas e econômicas costumam aumentar a percepção de risco".

"Olhando para além do curto prazo, fundamental lembrar que o desafio fiscal permanece, independentemente do candidato eleito. Esse desafio se intensificou ao longo do mandato, com os benefícios e programas criados, ampliados ou mantidos, deixando uma conta ainda mais pesada para 2027 e os anos seguintes".

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mercado
Ver na fonte
Compartilhe

Comentários 0

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.

0