Que história as novas gerações contarão sobre nós?
Nunca senti tanto medo e tanta angústia quanto nestas eleições
Esta coluna que você está lendo agora, depois das eleições, foi escrita na sexta-feira (23). Sempre envio meu texto para a Folha nas sextas, às 18h, mas ele só é publicado no site nas segundas, às 23h. O que posso escrever antes de conhecer o resultado das eleições?
Meu primeiro voto foi em 1976. Estive em todas as manifestações do movimento das Diretas Já, em 1983 e 1984. Fiz parte do Comitê Pró-Constituinte do Rio de Janeiro, durante a mobilização pela redemocratização e pela nova Constituição brasileira, promulgada em 5 de outubro de 1988.
Durante a ditadura militar, participei incansavelmente da luta pela redemocratização do país, mas nunca senti tanto medo e tanta angústia quanto nestas eleições. Nunca assisti, em toda a minha vida, a uma cena tão asquerosa como a do debate da Band, no dia 18 de outubro. O candidato da extrema direita me fez lembrar da perversidade de seu pai durante a pandemia de Covid-19.
Durante o isolamento social, meu melhor amigo, Guedes, de 98 anos, me ligava todos os dias, às 18h30. Ele, com seu jeito alegre e otimista, me aconselhava: "Tem que ter coragem, Mirian. Coragem".
Um dia, Guedes me ligou desesperado.
"Mirian, tanta gente morrendo, tantos filhos que não podem se despedir dos seus pais, tantos amigos partindo. E o presidente, desumano e criminoso, dando risadas e debochando das pessoas que estão sufocadas, que não estão conseguindo respirar. Quanta crueldade, quanto escárnio pelas vidas das pessoas que mais amamos. Será que vamos sair dessa tragédia mais solidários, mais empáticos, mais generosos?"
Em 2007, dei uma conferência na Universidade de Berlim. Os jovens demonstravam uma tristeza imensa ao se lembrarem das milhões de vítimas dos campos de concentração nazistas. Eles não aceitavam nem compreendiam como seus pais, avós e bisavós tinham silenciado ou até mesmo sido cúmplices de Hitler, do nazismo, do fascismo, da tortura e da barbárie. Hoje, com o crescimento da extrema direita na Alemanha e no mundo, eles sentem muito medo de que a história se repita.
No momento em que escrevo a coluna, faltando três dias para a eleição, vejo o resultado do Datafolha: 50% a 50%. Um empate.
O país dividido ao meio me fez lembrar do meu querido amigo Zuenir Ventura, que morreu aos 95 anos, no dia 22 de setembro. Em "Cidade Partida", publicado em 1994, Zuenir retratou o Rio de Janeiro dividido pela desigualdade e pela violência. Nestas eleições, vivi não só uma cidade partida, mas uma casa partida, uma família partida, uma amizade partida, um amor partido, um país partido e uma democracia partida.
Mas também vivi a alegria e a esperança na volta do verde e amarelo para todos os brasileiros e estive com meus jovens alunos e meus amigos nonagenários nas ruas, defendendo a nossa democracia. Foi uma lição de vida e de coragem ver a minha amiga Clarice, de 91 anos, ir de cadeira de rodas a todos os atos pela democracia no Rio de Janeiro.
Escrevo a coluna antes de assistir ao debate na Globo, antes de votar e antes de saber o resultado das eleições. Mas tenho certeza de que, no dia 25 de outubro, chegarei antes das 7h da manhã ao meu local de votação, irei acompanhar a zerésima e, com muita emoção, serei a primeira a votar pela democracia, pela educação e pelo futuro das crianças de hoje que serão os velhos de amanhã.
Que história as novas gerações contarão sobre nós? Será que terão orgulho de contar para seus filhos, netos e bisnetos que estivemos nas ruas e lutamos, com amor, coragem e garra para defender nossa democracia, liberdade e soberania?
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