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Populismo sofre baque com fracasso de Trump, mas não vai acabar

Rejeição nas urnas é grande, mas não inédita, e recorre tanto a elementos conservadores como a radicais

Populismo sofre baque com fracasso de Trump, mas não vai acabar

Doença infantil do mundo digital, a simplificação analítica ganha ares definitivos com a polarização política que permeia o debate público nestes anos 2020. Afinal, parafraseando Marx, tudo o que é sólido se desmancha em memes.

A derrota de Donald Trump nas "midterms" da terça-feira (3), histórica que tenha sido em diversos aspectos, já tem sido tratada como obituário da onda renovada do populismo à direita, meros 21 meses e 16 dias da volta do republicano ao poder.

Por evidente, há elementos impressionantes no desempenho democrata, em particular a penetração em redutos antes vistos como inexpugnáveis, como o Texas.

Pesaram contra o presidente culpas exclusivas suas: a impopularidade de sua figura arrogante e mentirosa, e o impacto da guerra que decidiu lançar contra o Irã na economia cotidiana.

Mas a resposta do eleitorado não foi uniforme, o que sugere divisões na oposição para 2028. Há um crescimento do radicalismo à esquerda no Partido Democrata, e o Zohran Mamdani da vez é Abdul El-Sayed, primeiro muçulmano eleito senador.

A viabilidade eleitoral de um discurso mais radical em nível nacional, descontando que Mamdani acomodou-se com Trump ao fim, ainda é algo a ver. O sucesso mais vistoso, no Texas, se deu com um candidato a senador, James Talarico, que ostentava credenciais religiosas de um bom republicano.

Há outros exemplos de moderação e radicalismo país afora. Considerando que o extremismo já ocupa o poder na forma de Trump e seus herdeiros presumidos, como Marco Rubio e J.D. Vance, ainda é incerta a tonalidade da disputa em dois anos.

Isso dito, a perda de controle do Congresso é a regra, não a exceção para presidentes em meio de mandato na história recente. É um sinal saudável de que o abalado sistema de freios e contrapesos da democracia dos EUA não morreu ainda.

Ampliando o terremoto político para o cenário global, o que importa bastante quando são colocadas dúvidas acerca do rumo das guerras em que Trump está envolvido, o cenário tem muitos matizes.

Na América Latina, que o presidente trata como seu quintal, a derrota republicana sugere um freio na onda que já havia batido num obstáculo com a reeleição de Lula (PT), há duas semanas.

Se é fato que o cenário de um controle total americano sobre boa parte das Américas está descartado e que pode haver mais oposição congressual a aventuras como a abdução da Venezuela, isso não muda a realidade regional: o Brasil segue isolado com o Uruguai na parte sul do continente.

Lula também enfrentará um Congresso ainda mais hostil a seu governo no quarto mandato e vive o dilema entre iniciar uma sucessão competitiva agora e arriscar virar pato manco, ou entregar o poder em 2030 a uma direita talvez purgada de bolsonarismos.

Assim, por entusiasmada que seja a reação dos progressistas, é exagero ver um movimento único na vitória do petista e dos democratas, quanto mais no limbo de Binyamin Netanyahu em Israel.

A motivação dos eleitores é bastante díspar em cada país, ainda que os acuados estejam no mesmo lado —trumpistas e bolsonaristas, para começar. O mesmo pode ser dito da Europa.

O continente viu uma vaga conservadora ao mesmo tempo da ascensão de Trump em 2016 que se espraiou de formas distintas: hoje o Reino Unido está à esquerda, a Alemanha ainda mais à direita e a França, ao centro. Em comum, todos estão em crise, e radicais direitistas estão na ascendente.

O mesmo imediatismo desta quarta (4) se deu quando a direita, boa parte dela bolsonarista, deu a lavada na esquerda no primeiro turno das eleições gerais brasileiras. Ou quando Joe Biden bateu Trump em 2020.

Os republicanos demoraram apenas seis anos para se recuperar de Watergate e marcar a virada do século 20 no poder, e um político negro com o sobrenome Hussein Obama foi eleito após os anos da "guerra ao terror" de George W. Bush —só para ser substituído por Trump na sequência.

O pêndulo político sempre esteve aí, apenas a velocidade dele é que está em aceleração. O populismo sofreu um grande baque, mas nada indica que irá acabar.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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