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Perto do Brasil, Colômbia recebe militares americanos para suposto treinamento

Participação de oficiais do governo Trump em país vizinho merece atenção de Brasília

Perto do Brasil, Colômbia recebe militares americanos para suposto treinamento

Os Estados Unidos e a Colômbia mantêm uma estreita aliança militar. Desde o Plano Colômbia, Washington financia, equipa e treina forças de segurança colombianas. Mas a chegada de centenas de militares americanos levanta uma pergunta: vieram apenas treinar ou também participarão de operações?

A resposta pode indicar até onde Donald Trump pretende levar o Escudo das Américas, iniciativa de combate a organizações criminosas no continente. A retórica da cooperação regional começa a ganhar corpo com soldados uniformizados em território colombiano.

A aproximação tem o apoio de Abelardo de la Espriella, que busca estreitar os laços com Washington. Em setembro, recebeu Marco Rubio em Barranquilla e pediu drones, equipamentos e intercâmbio de inteligência. Poucas semanas depois, a parceria passou a incluir tropas americanas em solo colombiano.

Segundo o Comando Sul, cerca de 350 militares americanos e 400 colombianos participam de exercícios conjuntos em Tolemaida e Bogotá, previstos até 11 de novembro. O governo colombiano falou em cerca de 300 americanos.

A versão oficial fala em treinamento e simulações. Mas, segundo a revista Cambio, o Ministério da Defesa pediu ao Comando Sul que substituísse "operações combinadas" por "operações simuladas combinadas". A escolha das palavras tem consequências jurídicas.

A Constituição colombiana prevê autorização do Senado para o trânsito de tropas estrangeiras. Em 2020, porém, o Conselho de Estado entendeu que certas missões temporárias de treinamento dispensam esse aval, desde que não envolvam participação em operações militares.

A Cambio informou ainda, com base em uma fonte, que americanos poderiam acompanhar forças especiais colombianas em ações contra Iván Mordisco e Calarcá, chefes de dissidências das Farc. Não há confirmação oficial dessa missão. Uma coisa é compartilhar inteligência ou simular operações; outra é acompanhar tropas na perseguição de alvos específicos dentro do país.

É nessa fronteira que o Escudo das Américas será testado. Se a iniciativa se limitar a equipamentos e treinamento, dará continuidade a uma cooperação antiga. Se envolver militares americanos em operações internas dos aliados, representará uma mudança de escala na atuação de Washington.

A Colômbia é um caso revelador. Suas Forças Armadas têm décadas de colaboração com os EUA, e o atual presidente deseja aprofundá-la. A questão não é uma intervenção imposta a Bogotá, mas até onde vai o consentimento para uma presença estrangeira nas decisões de segurança.

O movimento também interessa a Brasília. Brasil e Colômbia compartilham 1.645 quilômetros de fronteira amazônica, região em que o combate ao narcotráfico exige cooperação entre vizinhos. Uma eventual participação direta de militares americanos em operações colombianas merece atenção do governo brasileiro, mesmo que os exercícios atuais ocorram longe da fronteira.

O Escudo das Américas começa a sair do discurso. Na Colômbia, o teste é distinguir uma parceria entre países soberanos de uma presença estrangeira com influência crescente sobre operações de segurança interna.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mundo
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