O homem que ganhou quase cinquenta coroas de flores
Uma homenagem a Luiz Hirose, destacando seu legado e o impacto da presença nas relações humanas.
Quase cinquenta coroas de flores. Talvez alguém as tenha contado por curiosidade. Eu preferi pensar no que significavam. Porque, diante da morte, as flores costumam dizer o que as palavras já não conseguem. E, naquele velório, havia uma cidade inteira tentando encontrar palavras para se despedir de Luiz Hirose.
Poderíamos falar do empresário, do pioneiro da construção civil, das centenas de moradias que ajudou a erguer em Apucarana. Poderíamos enumerar as instituições que apoiou, os projetos esportivos que incentivou, as causas sociais às quais dedicou tantos anos. Tudo isso é verdade. Mas seria pouco. Muito pouco.
O senhor Luiz tinha recursos para ajudar. E ajudou. Seria injusto diminuir a importância dessas contribuições. Mas o que fez tanta gente querer estar ali não cabe em extratos bancários. Ele ofereceu algo que nenhum homem, por mais bem-sucedido que seja, consegue recuperar depois de entregar: seu tempo.
Na APAE, onde participou por mais de duas décadas, não foi apenas alguém que colaborou com a construção de uma escola. Esteve nas atividades, nas comemorações, junto dos alunos. No esporte, não se limitou a incentivar equipes: acompanhava jogos, conversava, aconselhava, torcia. Era a diferença entre financiar uma causa e fazer parte dela. Entre dar alguma coisa a alguém e dar um pouco de si.
Há uma história que me comove que pude ouvir nos corredores da vida. Anos depois de receber ajuda para a filha doente, uma mãe foi agradecer pessoalmente. Ele mal se lembrava do gesto. Mas aquela família jamais o havia esquecido. O que, para quem doa, às vezes é um instante, para quem recebe pode se tornar uma vida inteira de gratidão.
E então penso na nossa época. Aprendemos a medir o valor das pessoas pelo que acumulam, pelos cargos que ocupam, pelas obras que assinam. Vivemos ocupados demais para ouvir, apressados demais para visitar, distraídos demais para perceber. Substituímos, quando podemos, a presença por alguma coisa que se compra. E nos esquecemos de que nenhum presente substitui o tempo que alguém escolhe passar ao nosso lado.
Nas despedidas, chamaram-no de amigo, conselheiro, referência, quase um pai. Palavras diferentes para uma mesma experiência: ele estava presente. E talvez seja essa uma das definições mais difíceis e mais bonitas de humanidade - estar verdadeiramente na vida do outro, sem precisar ocupar o centro dela.
Em certa ocasião, Luiz Hirose disse que desejava ver seus quatro netos permanecerem em Apucarana. Parece-me impossível separar esse desejo do amor que dedicou à cidade. Ele não queria apenas deixar construções de pé. Queria ajudar a construir um lugar onde valesse a pena ficar.
À dona Amélia, aos filhos, aos netos e a toda a família, deixo mais do que condolências. Deixo gratidão. Sei que a saudade de vocês tem um nome e uma intimidade que a cidade jamais poderá alcançar. Mas obrigado por terem compartilhado conosco tantas horas, tanta atenção, tanto afeto de alguém que, antes de ser de Apucarana, era de vocês.
As coroas de flores irão murchar. É da natureza delas. As obras, um dia, também mudarão. Mas o tempo que alguém dedica a outra pessoa não desaparece quando termina: continua vivendo em quem foi amado.
E daqui a muitos anos, quando ninguém mais se lembrar de quantas coroas havia naquele velório, ainda haverá alguém em Apucarana capaz de começar uma história dizendo: “Uma vez, o senhor Luiz...”
Talvez seja essa a forma mais bonita de permanecer.
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