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Brasil

O sujo investigando o mal lavado

Decisão de Moraes sobre passaportes de Flávio junta-se a seu histórico de abusos e acaba municiando alegação de perseguição política

O sujo investigando o mal lavado

O STF volta a interferir na dinâmica da política nacional, incitando polarização e desconfiança sobre a sua atuação. Logo após o TSE confirmar a vitória de Lula, a Polícia Federal apresentou um pedido de apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes, que imediatamente o acatou.

Flávio ainda falava que iria pedir, sem fundamentos, a anulação do pleito; não anunciara intenção de deixar o Brasil. Um dos argumentos da PF para risco de fuga foi estapafúrdio: um comentário de Eduardo Bolsonaro dias antes da votação do segundo turno.

O senador do PL fugiu para os EUA e divulgou uma carta alucinada na qual se proclama presidente. Se pretendia ser estadista, deveria ter ficado no país e exercido seu direito de defesa nos inquéritos dos quais é alvo no STF. Mas é inegável que a decisão de Moraes junta-se ao seu histórico de abusos para municiar a alegação de perseguição política.

O inquérito das fake news é o oposto do que se entende por julgamento justo. Ao longo de sete anos, Moraes suplantou garantias fundamentais a granel.

Na última semana, o presidente do STF, Edson Fachin, encerrou ao menos oito investigações desse inquérito. Num dos casos, o jornalista Guilherme Fiuza teve contas bancárias e ativos financeiros bloqueados, além de passaportes cancelados —medidas impostas havia mais de três anos; seus perfis em redes sociais foram bloqueados por dois anos.

Cortes na Itália negaram pedidos de extradição de Carla Zambelli e Eduardo Tagliaferro, apontando falta de imparcialidade objetiva de Moraes, que atuou como vítima, inquiridor e julgador; na Espanha, um tribunal alegou risco de perseguição política para negar o de Oswaldo Eustáquio.

Para piorar, Moraes é o sujo investigando o mal lavado. Afinal, suas relações com Daniel Vorcaro —assim como as de Flávio— precisam ser apuradas. Mas o julgamento preliminar sobre o caso no Supremo foi um espetáculo grotesco de corporativismo.

É assim que a mais alta corte do país mina a confiança na Justiça e acirra a perniciosa divisão política da sociedade brasileira.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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