A extrema direita não respeita fronteiras
Parlamentares alemães discutem o avanço da AfD e o poder das big techs
Da janela da Fundação Friedrich Ebert, na avenida Paulista, era possível ouvir os preparativos para a manifestação de sábado, 24 de outubro, véspera do segundo turno. Entrevistei Armand Zorn e Elisabeth Kaiser, parlamentares do Partido Social-Democrata (SPD), que vieram acompanhar uma eleição importante também para a democracia europeia. Confiavam na vitória de Lula, mas temiam os efeitos de um governo Flávio Bolsonaro sobre a democracia e as políticas sociais e climáticas.
Na Alemanha, o SPD caiu de 25,7% para 16,4% dos votos em 2025. A aliança conservadora CDU/CSU venceu com 28,5%, enquanto a extrema direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) dobrou sua votação, de 10,4% para 20,8%. À esquerda, o Die Linke cresceu de 4,9% para 8,8%, especialmente entre jovens. O SPD hoje integra o governo do conservador Friedrich Merz.
Por que a AfD cresce tanto? Kaiser apontou a insegurança provocada pelas transformações econômicas, pela guerra na Ucrânia e pela inflação. Pessoas que conquistaram estabilidade temem perdê-la e receiam que os filhos vivam em condições piores. A AfD transforma a insegurança em ressentimento contra imigrantes. Zorn acrescentou as estratégias de apresentar a classe política como corrupta e prometer que somente a extrema direita pode resolver os problemas do país.
Para enfrentar a extrema direita, defenderam investimentos em educação, inovação, energias renováveis e empregos dignos. Não basta denunciar o autoritarismo, é preciso oferecer perspectivas materiais de melhoria de vida. Fica a dica para Lula.
Kaiser observou que os algoritmos digitais favorecem a circulação de afirmações escandalosas e polarizadoras. Destacou o apoio de Elon Musk à extrema direita e a aproximação de Mark Zuckerberg com Donald Trump. Para Zorn, a democracia pode representar um obstáculo aos interesses de empresas de tecnologia que buscam maximizar seus lucros.
A União Europeia avançou na regulação das big techs. Desde 2024, exige transparência sobre publicidade e algoritmos e medidas para proteger processos eleitorais. Em dezembro de 2025, multou o X, de Musk, em 120 milhões de euros por violações das regras de transparência. Em setembro, o governo Trump pediu à Justiça europeia para participar do processo em que Musk e o X tentam anular a multa.
No Brasil, governo e parlamentares tentam aprovar até dezembro um projeto que amplia os instrumentos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para combater práticas anticoncorrenciais das grandes empresas de tecnologia. Segundo reportagem de Guilherme Pimenta e Raphael Di Cunto, nesta Folha, a proposta enfrenta resistência empresarial e pressão americana.
Mas a sociedade civil brasileira propõe ir além. O documento Nosso Digital 2026-2030 reúne propostas para um ambiente digital soberano, plural e orientado ao interesse público. Regular mercados digitais e inteligência artificial, fiscalizar algoritmos, exigir transparência na moderação de conteúdo e responsabilizar empresas por danos.
Propõe ainda restringir a publicidade comportamental, fortalecer tecnologias nacionais, livres e abertas e enfrentar o racismo, a misoginia e outras discriminações reproduzidas pelas plataformas, com mecanismos de prevenção, reparação e participação social.
Na Paulista, enquanto se preparava a gigante manifestação, parlamentares alemães descreviam o desafio compartilhado por nossas democracias. Proteger direitos, enfrentar a concentração de poder e oferecer perspectivas concretas de melhoria de vida. Sem elas, a extrema direita tem terreno fértil.
Comentários 0
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.