Campo Grande, MS | 26°C | 01 de Novembro de 2026
AO VIVO 08:30
Brasil

O segundo lulismo

Vitória no segundo turno deve produzir consequências que vão muito além de quarto mandato de Lula

O segundo lulismo

A virada de Lula (PT) no segundo turno das últimas eleições deve produzir consequências que vão muito além de um quarto mandato com as contas públicas em frangalhos e do abate do bolsonarismo, como se o indicador que faz o L tombasse para frente e lhe cuspisse bala. É a única em quase 40 anos de segundos turnos presidenciais e a esquerda a ganhou de lavada no celular, com uma estratégia de comando e controle que contraria o manual do marketing digital.

O janonismo foi imediatamente erigido a método: a cartilha de gamificação política, com missões diárias, obediência total e regra explícita para jamais interagir com posts adversários, já circula em espanhol entre os apoiadores do primeiro-ministro Pedro Sánchez, atrás nas pesquisas para a eleição de 29 de novembro, enquanto a presidente do México, Claudia Sheinbaum, convidou Janones para ajudá-la por lá e simpatizantes de Mélenchon fundaram na França a sua versão local, os Soldats Insoumis. Num passe de mágica, a esquerda converteu o que chamava de comportamento de gado em força de manada.

O L, por sua vez, saiu da campanha e entrou na vida: mais de uma dezena de estrelas de Hollywood e do cinema europeu, de Mark Ruffalo e Juliette Binoche a Pedro Almodóvar, gravaram um vídeo fazendo o L; a presidente do México o fez ao entrar na coletiva de imprensa; deputados chilenos o fizeram dentro do Congresso; o primeiro-ministro espanhol o colocou nas peças da própria propaganda.

Um gesto inventado em 1989 porque faltava dinheiro para cartaz chegou em três dias a governos e parlamentos de três continentes. Nenhum símbolo político brasileiro tinha saído do país antes.

Lula está na sua última eleição e muitos apostam que o lulismo entra em estertor com ele. Duas coisas sugerem o contrário: a conversão, por ora, do L, que aqui é de Lula, em Madri é de "lucha" e em Hollywood é de "love", em símbolo da esquerda no mundo e o avanço da inteligência artificial sobre o emprego num país que não a fabrica.

À medida que o token se fixa como unidade transnacional de trabalho, a desigualdade entre as nações cresce e os discursos anti-imperialistas rejuvenescem. Internamente, o funcionário de escritório ganha uma equipe de agentes, enquanto as fábricas e o agro se robotizam, o que reduz as contratações e, num primeiro momento, uberiza a sociedade.

As respostas a esse mundo tendem a combinar empreendedorismo e proteção social. A IA facilita abrir um negócio, assumindo contabilidade e marketing, mas também ameaça quem estudou e conquistou uma profissão. O lulismo pode encontrar aí uma nova base entre gente que nunca precisou de assistência pública e agora corre o risco de depender dela.

Se a hipótese estiver correta, isso tudo deve aparecer na cartilha de um novo movimento, o segundo lulismo, na linha do peronismo, que sobreviveu meio século a Perón porque virou um jeito de ser argentino. O movimento precisa de pouco: um gesto, a lembrança, mesmo que não inteiramente verdadeira, de Lula como pai do Bolsa Família e tropas de 10 milhões forjadas por anos de algoritmização do pensamento nas redes.

O brasileiro de esquerda das próximas décadas vai se dizer lulista como o argentino se diz peronista. E a esperança da direita de que o lulismo desaparecesse com Lula vai dar com os burros n'água.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
Ver na fonte
Compartilhe

Comentários 0

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.

0