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Livro questiona discurso de liberdade e privacidade do Telegram

Obra de Darren Loucaides investiga as origens da plataforma e as contradições entre o discurso de Durov e suas decisões

Livro questiona discurso de liberdade e privacidade do Telegram

No panteão dos excêntricos da tecnologia determinados a comandar nosso futuro, Pavel Durov conquistou seu lugar.

Talvez não seja tão conhecido quanto Mark Zuckerberg ou Elon Musk, mas o fundador russo do aplicativo de mensagens Telegram reúne todos os atributos necessários: é um bilionário nômade que faz declarações grandiloquentes em defesa do libertarianismo, considera a si próprio um mártir da liberdade de expressão e tem um número desconhecido —mas provavelmente elevado— de filhos.

Acima de tudo, Durov tem uma boa história para contar: nascido em São Petersburgo, na então União Soviética, ele teria criado um aplicativo voltado à privacidade depois que forças ligadas ao Kremlin assumiram o controle de sua primeira empresa, obrigando-o a deixar o país. Quem melhor para compreender a importância de uma comunicação segura?

Durante mais de cinco anos, Darren Loucaides, jornalista colaborador da revista Wired, investigou a mística antiautoritária que ajudou o Telegram a alcançar 1 bilhão de usuários em todo o mundo.

"Killer App" é o resultado desse trabalho. Ao reconstituir as origens complexas da empresa, Loucaides encontra uma história em que o pragmatismo prevalece sobre o idealismo. A ambição também vai muito além do universo das startups.

O autor escreve: "Durov acreditava que os chefes das plataformas estavam em processo de construção de Estados virtuais, que acabariam por se sobrepor aos governos nacionais. [O Telegram] seria a materialização dessa visão".

Para quem nunca usou o Telegram, a maneira mais simples de entendê-lo é como uma combinação de X e WhatsApp. O aplicativo reúne mensagens diretas gratuitas, grandes grupos e canais públicos nos moldes das redes sociais, além de jogos, compras e pagamentos.

Embora não seja tão popular nos Estados Unidos e na Europa Ocidental quanto o iMessage ou o WhatsApp, o Telegram se beneficiou da desconfiança em relação à maneira como o Vale do Silício trata os dados dos usuários, apresentando-se como uma alternativa mais segura.

É significativo que esteja presente nos dois lados de conflitos ao redor do mundo, sendo utilizado pelas forças militares da Rússia e da Ucrânia, pelo Hamas e pelas Forças de Defesa de Israel.

O aplicativo foi criado em 2013 por Durov e seu irmão mais velho, Nikolai, um prodígio da matemática. Na época, os dois trabalhavam na primeira startup de Durov, uma espécie de versão russa do Facebook chamada VK (VKontakte). À medida que o presidente Vladimir Putin ampliava o controle sobre o acesso à internet na Rússia, a VK passou a sofrer pressão, incentivando Durov a buscar um novo empreendimento.

Mais tarde, Durov negou qualquer ligação entre a VK e o Telegram. Mas, com base em entrevistas com antigos e atuais investidores, executivos, funcionários das duas empresas e especialistas, Loucaides apresenta uma história bem mais conturbada.

Entre os episódios estão relatos de uma disputa comercial na VK, uma briga pela propriedade intelectual do Telegram e uma alegação bizarra de Durov de que sua renúncia à VK havia sido uma brincadeira de 1º de abril.

Loucaides retrata alguns dos conflitos como motivados mais por dinheiro do que por questões políticas e sugere que os protestos públicos e ruidosos de Durov nas redes sociais contrastavam com sua disposição para cooperar nos bastidores.

Nas palavras do autor, ele não é exatamente "o anjo sombrio e cruzado da era digital". Tampouco viveu no exílio depois de vender sua participação na VK. Continuou viajando de volta à Rússia.

O verdadeiro golpe para os admiradores do Telegram talvez esteja no capítulo sobre as preocupações com a segurança do aplicativo.

A ausência de criptografia de ponta a ponta ativada por padrão é conhecida, assim como as críticas de especialistas em segurança ao protocolo criptográfico proprietário da plataforma. Mas organizações de direitos humanos também acusaram o Telegram de possível colaboração com o Kremlin ao permitir que o governo interceptasse mensagens de dissidentes.

Em sua investigação, Loucaides não encontra provas que confirmem essa suspeita. Ainda assim, levanta uma questão inquietante: será que houve algum tipo de acordo tácito? "Afinal, começaram a surgir casos de colaboração do Telegram com autoridades de outros países. E, nessas situações, Durov continuou a priorizar os interesses comerciais em detrimento dos princípios que dizia defender."

Outros dois episódios levaram o Telegram às manchetes internacionais nos últimos anos. Um deles foi a afirmação de Durov de que é pai de mais de 100 filhos e pretende disponibilizar seu DNA em código aberto. O outro foi sua prisão, em 2024, pelas autoridades francesas.

Ele foi acusado de cumplicidade na disseminação de material de abuso sexual infantil, tráfico de drogas e fraudes, em razão da falta de cooperação com solicitações judiciais. A prisão de um executivo-chefe de uma plataforma de tecnologia foi interpretada por alguns como um ataque à liberdade de expressão. "Tempos perigosos", publicou Musk.

Mais uma vez, Loucaides argumenta que o discurso público de resistência de Durov contrasta com sua disposição para fazer concessões discretamente. A política de privacidade original do Telegram dizia: "Nunca compartilhamos seus dados com ninguém. Não".

A promessa atraía criminosos, mas também conquistava usuários que viviam em países submetidos a intensa vigilância digital. Desde então, o texto foi alterado para esclarecer que atividades terroristas ou criminosas podem levar à divulgação do endereço IP e do número de telefone de um usuário. Durov foi autorizado a deixar a França.

A literatura sobre empresas de tecnologia que não correspondem aos ideais grandiosos que proclamam e decepcionam jovens usuários e funcionários que depositaram esperanças nelas já é extensa. O relato minucioso de "Killer App" sobre as concessões e disputas envolvidas na construção de uma empresa global de tecnologia —criada fora dos Estados Unidos— é uma contribuição relevante para esse conjunto de obras.

Ainda assim, a frustrada tentativa do autor de entrevistar Durov, em uma perseguição que se arrastou por meses, teria funcionado melhor se o presidente-executivo do Telegram não tivesse concedido entrevistas a outras publicações, inclusive ao Financial Times.

Um sinal dos nossos tempos é que essas histórias frequentemente terminam com a continuidade do sucesso da empresa retratada. O Telegram não é exceção. A plataforma já foi banida, processada e esteve à beira de uma crise financeira.

Mesmo assim, registra números de usuários em crescimento e adota uma abordagem com pouca moderação e favorável às criptomoedas, que se encaixa bem na segunda administração Trump —assim como o interesse peculiar de Durov pelos níveis de testosterona de outros homens.

Durov talvez seja menos um ideólogo do que um pragmático capaz de mudar de posição conforme as circunstâncias. Mas o mesmo vale para o setor que construiu sua fortuna.

Fonte original Publicado originalmente por UOL
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