Filme 'Zona Zero' transforma mortos-vivos em alegoria da inteligência artificial
Superprodução usa zumbis para representar os perigos da IA
Em 1985, "O Dia dos Mortos", de George A. Romero, mostrou Bub, zumbi com princípio de inteligência e graus de organização e estratégia, em meio à horda irracional e carnívora característica de filmes do tipo das duas décadas anteriores.
Em 2026, "Zona Zero", do sul-coreano Yeon Sang-ho, extrapola o conceito ao mostrar pessoas infectadas por um vírus sintético se tornarem devoradoras de carne humana enquanto compartilham informações mentais, agem em coletivo e se movimentam em uníssono, em evolução constante.
Cada nova mensagem absorvida pelos atingidos se espalha de imediato a todos os outros. Quando isso acontece, eles se paralisam por alguns segundos, quase como se as criaturas fizessem download das novas atualizações, em meio ao cerco a um grupo de sobreviventes encurralados num grande prédio comercial de Seul.
O novo filme coloca Sang-ho de volta ao subgênero mortos-vivos, depois do sucesso mundial de "Invasão Zumbi", em 2016, e do fracasso da sequência, "Invasão Zumbi 2: Península", que chamou bem menos atenção quando lançado, há seis anos.
Verdadeiro operário da indústria audiovisual sul-coreana, o diretor fez, na última década, oito longas-metragens, uma série e uma animação, mas só agora um novo trabalho seu ganha o circuito comercial brasileiro.
A ideia para "Zona Zero" foi desenvolvida por Sang-ho a partir de "Profecia do Inferno", série de duas temporadas que entregou para a Netflix, em 2021.
Em conversa realizada por videochamada, ele conta ter discutido com o parceiro roteirista Choi Kyu-seok alguns conceitos que vinham à tona no desenvolvimento do programa de streaming.
"Profecia do Inferno" discutia o comportamento de grupos e o fanatismo religioso, o que levou Sang-ho e Kyu-seok a se interessarem por outras formas de tratar a coletividade em situações-limite.
"Enquanto ‘Profecia do Inferno’ era sobre as dinâmicas coletivas num contexto da fé, decidimos pensar em como as mesmas dinâmicas podem aparecer na troca ultrarrápida de dados e como a inteligência artificial, ao maximizar isso nos dias de hoje, faz o conceito de universalidade se tornar dominante", afirma o diretor. "A consequência desse processo nos parece ser que a individualidade humana pode ficar impotente."
"Zona Zero" teve estreia mundial em maio na Midnight Screen, mostra paralela do Festival de Cannes dedicada a filmes de horror.
A trama se inicia numa conferência de biotecnologia em Seul, quando um cientista frustrado libera um vírus de rápida mutação dentro dos corredores do lugar. Dezenas de pessoas são contaminadas e se tornam predadores humanos de assustadora capacidade física e elástica, tão famintos quanto passíveis de evoluírem sua própria condição física e mental a cada aprendizado que pelo menos um deles absorve.
O prédio é isolado, e um grupo de sobreviventes fica preso no local. Entre eles está Kwon Se-jeong, professora de biotecnologia interpretada por Jun Ji-hyun, que tenta encontrar soluções para enfrentar os infectados e entender de que maneira eles evoluem tão rapidamente.
No meio disso tudo ainda há o biólogo Seo Young-cheol, papel de Koo Kyo-hwan. Ele é o antagonista em total controle da situação e cujos propósitos só se revelam já quase ao final, em meio a um desfecho frenético e grandioso como tanto gosta o cinema comercial da Coreia do Sul.
O interesse de Sang-ho era investigar pela chave do horror e da ficção científica o que pode acontecer quando a lógica da conexão e da transmissão de conhecimento unilateral se torna forte demais diante da autonomia individual.
Em "Zona Zero", a infecção produz justamente a tensão entre indivíduo e coletivo. Os contaminados aprendem a partir das experiências do grupo e passam a agir coordenados. A ameaça, portanto, não depende apenas do número de infectados, mas da capacidade que eles têm de acumular e compartilhar informação.
Naturalmente, a inteligência artificial, um dos grandes assuntos do momento, estava na base das reflexões dos roteiristas, ainda que ela nunca seja nomeada em cena. É fácil captar esse comentário sem que isso se torne o centro do drama, como bem queria Sang-ho.
"Embora carregue uma mensagem consideravelmente complexa, acredito que o filme aborda um temor contemporâneo com o qual todos nós nos deparamos", diz ele. "Tentamos fazer com que as emoções intuitivas e o medo fossem absorvidos de forma bastante acessível e universal a quem for assistir."
O filme usa a inteligência coletiva dos zumbis como representação de um problema que Sang-ho associa à tecnologia contemporânea: quanto mais tecnologicamente eficiente é a comunicação entre os indivíduos, menor pode ser o espaço para decisões estritamente individuais.
Em muitos aspectos, essa premissa e alguns elementos de "Zona Zero" remetem diretamente a "Pluribus", série da Apple TV+ criada por Vince Gilligan e exibida com grande repercussão. No programa, um fenômeno extraterrestre transforma quase toda a humanidade numa espécie de consciência coletiva. Mesmo o título internacional do filme coreano, "Colony", podia servir a "Pluribus".
O diretor admite a semelhança, ainda que tenham sido projetos feitos em paralelo. "‘Pluribus’ foi lançada quando estávamos finalizando ‘Zona Zero’. Foi quando eu vi e achei muito interessante, mas não considero uma inspiração", conta Sang-ho. O que ele diz acreditar é que ambas as obras partem de perturbações muito aproximadas.
"Senti em ‘Pluribus’ o horror potencial e o assombro latente do mundo moderno em que vivemos, sentimentos que compartilhamos no nosso filme. Estamos dentro de um mesmo espírito do nosso tempo."
A semelhança entre "Zona Zero" e "Pluribus" tem também em comum o deslocamento do imaginário zumbi de uma figura metafórica de finitude e putrefação para a representação de crises de identidade.
Desde 1968, com "A Noite dos Mortos-Vivos", de George A. Romero, o subgênero passou por diferentes interpretações, de alegoria política à ameaça epidêmica e manifestação de colapsos sociais. Mesmo "Invasão Zumbi" deu sua contribuição ao abordar os monstros dentro de um cenário de crise econômica das grandes metrópoles.
"Zona Zero" acrescenta a esse repertório a ideia assustadora, e já parte do noticiário, de que ferramentas como ChatGPT e Claude, sistemas capazes de processar e transmitir informação em escala gigantesca, produzam comportamento unívoco que prescinda de decisões pessoais.
Apesar de consciente da catástrofe iminente, Sang-ho sabe fazer entretenimento dentro do que o cinema lhe permite. "Acredito que ‘Zona Zero’ seja uma obra divertida e com um suspense muito direto sobre aquilo de que tratamos", afirma.
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