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Derrota dá 2 meses para Trump decidir futuro de suas guerras

Fator eleitoral, Irã pode ter escalada antes de paz; Putin manterá acirramento como carta na Ucrânia

Derrota dá 2 meses para Trump decidir futuro de suas guerras

A derrota por grande margem do Partido Republicano na eleição legislativa de meio de mandato nos Estados Unidos coloca em xeque o futuro das guerras de Donald Trump. Os conflitos no Irã e na Ucrânia, além do desabrido uso de força na América Latina, passarão por dois meses cruciais.

Em 3 de janeiro, um novo Congresso hostil à Casa Branca assumirá sob controle democrata, o que vai dificultar, mas não impedir o militarismo instável adotado pelo presidente que se vendia como um opositor da guerra.

A nova legislatura pode tornar-se uma fonte permanente de supervisão do até aqui desenvolto presidente, levando suas decisões a julgamentos mais rápidos —elevando até o risco de impeachment eventual; no seu primeiro mandato, ele só não foi impedido porque ainda tinha maioria republicana no Senado.

Acordos como o firmado com Vladimir Putin para a compra do diesel, que ao fim não serviu para baixar os preços de combustíveis e ajudar os republicanos, serão objeto de escrutínio mais imediato. Os cortes no serviço de satélite à Ucrânia, também.

Mas decisões sobre ações militares diretas seguem sendo largamente privativas do Executivo, que encontra formas de driblar as exigências legais de autorização congressual. Mas isso pode mudar, caso seja ressuscitada a proposta de limitar os poderes de guerra de Trump, que quase passou no meio do ano.

Outro fator central é o orçamentário. O projeto para o ano fiscal de 2026-2027 prevê o maior gasto com defesa da história, de US$ 1,15 trilhão. É bastante provável que a tesoura democrata será aplicada agora no Senado, onde o texto está.

Como o próprio Trump já disse, contudo, ele pode se tornar o "Senhor Veto". Quaisquer decisões contrárias a seu interesse no Congresso podem ser vetadas, e aí caberá às Casas reunirem 2/3 de maioria para derrubar o não presidencial.

Com a expectativa desses embates paralisantes, a noção de que a janela de dois meses será vital ganha força. Mas seu modelo negocial consagrado é o de alternar pressão extrema e concessões a fim de chegar a acordos que possa vender como vitórias, e isso demanda controle de tempo que ele já não terá.

IRÃ

O Irã é a questão mais premente, dado o papel que o próprio Trump admitiu que o conflito no Oriente Médio teve no fracasso republicano.

A expectativa mais aceita entre observadores era a do recomeço da guerra em termos mais amplos, e houve movimentações militares expressivas iranianas nas últimas semanas, como o posicionamento de aeronaves de reabastecimento no sul de Israel e um aparente recuo de forças mais expostas a retaliação em bases americanas no Golfo Pérsico.

O Irã manteve a retórica de que estava pronto para tudo, e sua TV estatal até divulgou um vídeo orientando a população para o caso de Trump empregar uma bomba atômica contra os bunkers do programa nuclear da teocracia.

A derrota eleitoral obrigará Trump a colocar um fim à guerra se quiser manter um plano de recuperação visando a eleição presidencial de 2028. Para tanto, contudo, é possível que ele escale o conflito para tentar extrair uma imagem vitoriosa.

Seguindo essa lógica, Teerã já demonstrou ser capaz de resistir à pressão e o enfraquecimento político de Trump joga em seu favor. Os iranianos poderão aumentar seu grau de demandas, e talvez o republicano ceda em nome da normalização do mercado de energia.

São opções opostas, na prática, com pouca margem para ser mantido o status quo atual, de guerra congelada com espasmos de violência. Pesa na equação a contínua crise na Arábia Saudita, pressionada pelos ataques dos houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã.

Aqui entra também o fator Israel. Uma das últimas cartadas tentadas por Trump para mitigar o impacto da guerra na eleição foi dizer que acertou com o aliado Binyamin Netanyahu o fim do programa atual que previa ajuda militar de US$ 3,8 bilhões anuais ao Estado judeu até 2028.

É incerto que isso sobreviva pelo valor de face agora, mas o próprio Netanyahu vive um momento de dúvida acerca de seu futuro político, em suspenso desde que não fez maioria no Parlamento na eleição da semana passada.

A julgar pelo histórico, isso pode instigar o militarismo do premiê, embora sua influência sobre Trump tenda a ser menor dado o desastre eleitoral da guerra contra o Irã, que incentivou desde o começo.

UCRÂNIA

As negociações Rússia-Ucrânia intermediadas pelos EUA recomeçarão na próxima semana em Abu Dhabi, o que já garante a abertura diplomática de que Trump necessitaria agora para o conflito que prometera em 2024 encerrar em 24 horas.

Aqui, a posição do republicano é bem mais suscetível ao Congresso, visto que não é uma guerra com ação direta americana. Sua tendência de alinhamento a Putin será questionada de forma mais objetiva, com eventuais investigações sobre medidas como o acordo do diesel.

O risco de escalada, aqui, é de outra ordem. Percebendo uma crescente fragilidade de Trump, Putin deverá acirrar a pressão militar contra Volodimir Zelenski na forma de uma campanha ainda mais agressiva contra o setor energético da Ucrânia antes da chegada do inverno europeu, em dezembro.

Isso dará ao americano duas opções: aquiescer, talvez ainda adulando Putin com uma reunião trilateral incluindo Xi Jinping neste mês, ou voltar a pressionar o russo. A primeira alternativa mantém Kiev rifada no processo, enquanto a segunda antevê mais violência em campo e riscos aumentados no embate de Moscou com a Europa.

AMÉRICA LATINA

Por fim, o novo Congresso poderá buscar impor limites aos efeitos práticos da Estratégia de Segurança Nacional de Trump, que viu na captura de Nicolás Maduro em janeiro seu ponto mais alto de desenvoltura militar.

O problema para o republicano, contudo, é mais de natureza política. A reeleição de Lula (PT) tolheu o plano de um de seus herdeiros presumidos, o secretário de Estado, Marco Rubio, de ter uma região dócil politicamente.

Com isso, há o risco de a iniciativa de defesa Escudo das Américas ter o mesmo fim das instituições implementadas na "onda vermelha" latino-americana dos anos 2000, como a Unasul: o ocaso.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mundo
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