Decreto 001, o Brasil é do senhor Jesus Cristo
Ao entregar cidades a Jesus, governantes reivindicam uma autoridade metafísica para decisões que deveriam permanecer no campo da política
Em agosto deste ano, Flávio Bolsonaro (PL) prometeu que, se fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos como incumbente seria decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo. A promessa causou espanto e furor, mas estaria longe de ser novidade. Ano a ano, multiplica-se o número de decretos como esse Brasil afora.
No dia 1º de janeiro de 2025, a prefeita de São Francisco de Itabapoana (RJ), Yara Cinthia (Republicanos), assinou seu primeiro decreto. Nele consta o seguinte: entrega-se a chave da cidade a Jesus Cristo, reconhecendo-o como senhor soberano sobre a cidade; declara-se que o município pertence a Deus e põe-se toda a administração sob a proteção do Altíssimo; proclama-se que o ato é irrevogável e tem efeito imediato, comprometendo todos os passos do governo municipal com a orientação divina.
Este é apenas um dos exemplos que se somam às dezenas no Brasil ao longo da última década. Com pequenas variações, a fórmula se repete.
No primeiro decreto de 2017, a prefeita de Alto Paraíso (RO) decretou a entrega da chave da cidade a Deus e oficiou que o município a ele pertence. No segundo artigo do decreto, conforme registro do Diário Oficial, todas as forças espirituais do mal do mundo são expulsas do município e todos os pactos com outros deuses são desfeitos.
Em todas as regiões do país, há cidades, sobretudo pequenas e médias, com decretos semelhantes.
Entre as capitais, em agosto deste ano, Curitiba foi declarada, por lei municipal, a Capital Pró-Vida do país. A lei foi proposta pela vereadora Delegada Tathiana Guzella (PL), numa iniciativa fruto do lobby cristão antiaborto.
Embora políticos católicos e evangélicos muitas vezes atuem numa espécie de frente ampla cristã no apoio a esse tipo de decreto e consagração, iniciativas assim respondem a questões muito características da teologia pentecostal e neopentecostal.
Na lógica desses grupos religiosos, o princípio da batalha espiritual do bem contra o mal domina e deve determinar as ações no mundo. Por isso, decretar uma cidade, um estado ou um país como sendo do senhor Jesus Cristo equivale a profetizar que, naquele território, o bem venceu o mal.
Há duas ordens de graves problemas nesse tipo de decreto. A primeira é de natureza jurídico-administrativa. Afinal, não há qualquer princípio de administração pública que sugira ser razoável submeter o Estado às orientações divinas. Quão nefasto seria afirmar que tudo aquilo que um mandatário faz é feito em nome de Deus?
A segunda ordem de problemas é de filosofia política, mas com consequências muito pragmáticas. Nesses decretos, as questões sobre o bem e o mal, o justo e o injusto, o legal e o ilegal se revestem de aspectos metafísicos, sobre os quais não caberiam debates da política institucional, mas sim dogmas religiosos.
A prática já seria suficientemente grave se terminasse por aí, mas há ainda nesses decretos uma outra volta no parafuso. Aqueles que decretam que os territórios sob seu governo foram entregues a Jesus também reivindicam para si o lugar de designados por Deus.
Não há nada de antirreligioso na denúncia dos perigos implicados neste tipo de decreto. Os religiosos, suspeito, é que deveriam ser os primeiros a desconfiar daqueles que, sendo políticos, transferem para si a autoridade metafísica de falar em nome de Deus.
Quando o debate político é esvaziado e se passa a legislar sob orientação divina, qualquer posição que se colocar no caminho é transformada em manifestação maligna.
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