Crise do Ueno Bank expõe contradições do modelo econômico paraguaio
Expansão do acesso a serviços financeiros não significa superação de fragilidades econômicas e institucionais
São Paulo A crise do Ueno Bank sintetiza algumas das contradições da economia do Paraguai, expondo os limites de um modelo que combina crescimento com fragilidades estruturais profundas. A instituição cresceu rapidamente e se tornou um símbolo de modernização e inclusão financeira em um mercado no qual uma parcela expressiva da população ainda estava fora do sistema bancário.
Em setembro, o banco dizia ter mais de 3 milhões de clientes em um país de mais de 7 milhões de habitantes. Para além do varejo bancário, o Ueno também administrava recursos públicos, inclusive da previdência social e de empresas estatais, e era responsável pelo pagamento de benefícios a milhares de aposentados paraguaios.
A expansão ocorreu em uma economia que mantém indicadores positivos: após crescer 6,6% em 2025, o Paraguai tem previsão de avançar 4,7% em 2026 e 4,1% em 2027, segundo previsões do Banco Mundial. O país também tem uma população jovem e acaba de ampliar suas oportunidades de inserção comercial com o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, integrando uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo.
Persistem, no entanto, problemas como a baixa diversificação produtiva, a concentração econômica, a precariedade de infraestrutura e a limitada capacidade do Estado de financiar políticas públicas e promover o desenvolvimento.
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Embora a taxa de desemprego tenha ficado em 4,1% no terceiro trimestre de 2026, segundo o Instituto Nacional de Estatística, a informalidade continua elevada. Em 2025, 60,1% dos trabalhadores estavam em ocupações informais. Entre os jovens de 15 a 19 anos que tinham ocupação, o índice chegava a 89,4%.
A política tributária conhecida por "triple 10", que estabelece alíquota máxima de 10% para três dos principais tributos do país, embora pareça atrativa para o mercado financeiro, somada às elevadas taxas de evasão fiscal, fragiliza a capacidade do Estado de implementar políticas públicas e enfrentar os problemas estruturais do país.
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Carregando...No campo político, a transição democrática iniciada em 1989, após 35 anos de ditadura de Alfredo Stroessner, não rompeu completamente com as instituições e burocracias do regime, nem conseguiu construir uma democracia estável.
A manutenção de uma estrutura de governo centralizada, sob a hegemonia do Partido Colorado, contribuiu para a fragilidade institucional, limitou sua capacidade de implementar políticas públicas e reforçou a concentração de poder e a influência de grupos políticos tradicionais.
Essa herança também marcou a atuação internacional do país, historicamente condicionada pela falta de profissionalização das instituições e por uma estratégia de inserção internacional condicionada pelos constrangimentos impostos por Argentina, Brasil e Estados Unidos.
A própria entrada do Paraguai no Mercosul é um exemplo: o país ingressou no bloco em um processo conduzido principalmente por seus vizinhos, sem oportunidade de formular sua proposta de adesão, para aproveitar a oportunidade de inserção regional conduzida por Brasil e Argentina e superar o isolamento internacional herdado da ditadura.
A economia paraguaia permanece concentrada em poucos setores, com baixa diversificação produtiva, e sua inserção comercial no Mercosul revela algumas dessas fragilidades. Uma parcela importante do comércio está ancorada na importação de mercadorias para posterior revenda aos países vizinhos, especialmente ao Brasil.
A parcela paraguaia da eletricidade gerada por Itaipu e vendida ao Brasil também tem peso nas exportações intrabloco, enquanto a soja, principal produto vendido pelo Paraguai aos parceiros do Mercosul em 2026, tem a Argentina como principal destino, onde é processada e exportada para a China, em uma dinâmica relacionada às dificuldades nas relações diplomáticas oficiais entre Assunção e Pequim, em função do reconhecimento de Taiwan como nação independente.
Essas dinâmicas evidenciam os limites da inserção internacional da economia paraguaia e sua dificuldade de diversificação das exportações e de aproveitamento das oportunidades oferecidas pelo Mercosul, como a ampliação das exportações e a atração de investimentos associadas ao acordo Mercosul-UE.
Em razão de sua condição de Estado pequeno, de sua economia menos desenvolvida e das assimetrias em relação aos demais sócios no bloco, o país frequentemente reivindica mecanismos de tratamento especial e diferenciado e medidas de compensação nos acordos comerciais negociados pelo Mercosul.
Essas demandas se traduzem em regimes de exceção e regras específicas para o Paraguai. Ao mesmo tempo, sem avanços na infraestrutura, na diversificação produtiva e na capacidade do Estado de financiar políticas de desenvolvimento, o Paraguai terá dificuldades para transformar as oportunidades de abertura comercial em novos investimentos, empregos e maior valor agregado à produção nacional.
Evidência disso é o baixo nível de utilização do Sistema Geral de Preferência Plus (SGP+), mecanismo pelo qual a UE concede condições tarifárias mais favoráveis a produtos de países em desenvolvimento para facilitar o acesso ao mercado europeu, vigente até a assinatura do Acordo Mercosul-UE.
O Paraguai teve dificuldades para ampliar suas exportações por essa via, entre outros motivos, pela falta de capacidade para cumprir com os requisitos técnicos e sanitários da UE.
A crise do Ueno Bank expõe, assim, uma contradição central desse modelo: a modernização de determinados setores, os indicadores macroeconômicos positivos e a expansão do acesso a serviços financeiros não significam, por si só, a superação das fragilidades econômicas e institucionais do país.
Para se traduzir em desenvolvimento, o crescimento econômico precisa ser acompanhado de estabilidade democrática, instituições sólidas, previsibilidade e capacidade de implementar políticas públicas que enfrentem os gargalos estruturais da economia paraguaia.
Guilherme Guimarães Ferreira é professor na Unifesp, doutor em relações internacionais e pesquisador financiado pela Fapesp no projeto "A política dos Estados pequenos: Paraguai, Uruguai e a Agenda Externa do Mercosul"
Talita Marchão é jornalista, mestre em relações internacionais e pesquisadora financiada pela Fapesp no projeto "A política dos Estados pequenos: Paraguai, Uruguai e a Agenda Externa do Mercosul"
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