Coitada de Fernanda Bolsonaro
Durante toda a campanha, ela teve, sem dúvida, de engolir muitos sapos
Há uma crença popular de que a palavra "coitado" viria do substantivo "coito", sinônimo de relação sexual. O "coitado" seria, portanto, alguém que "sofreu o coito". Trata-se de uma dessas explicações que fazem tanto sentido que acabam soando mais verdadeiras do que a própria verdade. Afinal, como explicar a equivalência semântica e o óbvio parentesco etimológico de um "coitado" e um "fodido"?
Hoje, pela manhã, quando vi a foto de Fernanda Bolsonaro, ao lado de seu marido, Flávio, seu cunhado Eduardo, e a mulher dele, Heloísa, em sua primeira aparição pública depois de fugir do Brasil rumo a Miami, essa foi a palavra que veio na minha cabeça: coitada.
Não sei o que se passa no casamento de Flávio e Fernanda, mas achei irônico ter pensado justamente nesta palavra, uma vez que tanto se noticiou sobre um possível apetite de Flávio para coitar garotas de programa.
Mas, ao contrário do que o dito popular nos faz crer, acredita-se que "coitado" não derive de coito, e sim do latim popular "coctare", que, por sua vez, está ligado a coactus (particípio de cogĕre, que significa forçar, coagir ou apertar). Significa, portanto, aquele posto em aperto, que sofreu uma imposição, ou que está em uma situação de infortúnio e dor.
E é nesse sentido que considero Fernanda uma coitada.
Veja, não tenho pena dela. Considerar alguém um coitado não pressupõe pena, nem compaixão, sentimentos que não nutro por ninguém do clã Bolsonaro. Pena eu tenho das mulheres que perderam filhos, maridos, pais, amigos ou a própria vida para um vírus contra o qual já existia vacina. Pena sinto das mulheres violentadas por maridos e desacreditadas pelas autoridades que deveriam protegê-las.
Eu já estive num relacionamento com um homem que me envergonhava. Um cara sem qualquer postura, que se metia em confusões, maltratava amigos, dava vexame, traía nosso relacionamento monogâmico à luz do dia. E, como Fernanda, muitas vezes, paguei o pato pelas patacoadas, mau-caratismo e indiscrições dele. Fui a namorada que limpava a casa depois dos copos quebrados, que explicava aos amigos "que ele não tinha feito por mal", que posava de companheira leal diante dos cúmplices de suas traições.
Há um trabalho imenso em absorver o impacto das escolhas do outro. Durante toda a campanha, Fernanda teve, sem dúvida, de engolir muitos sapos. Posou sorridente ao lado do marido enquanto descobria (ou revivia) as infidelidades cometidas por ele. Certamente, teve que ter conversas difíceis com as filhas sobre o que andavam falando na mídia sobre o pai. Depois, diante da covardia de Flávio em encarar a lei, teve que fugir na calada da noite do país onde vivia, sem saber se um dia poderá voltar.
Não tenho pena de Fernanda, porque os milhões na conta devem, em alguma medida, amenizar seu sofrimento. Como diz o meme: se for para sofrer, é melhor sofrer em Paris, ou, no caso de Fernanda, em Miami.
Não tenho pena de Fernanda porque ela escolheu apoiar o marido, escolheu apoiar seu projeto de poder e escolheu se beneficiar dele. Mas sigo olhando para aquela foto e pensando: coitada.
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