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Bolsonaristas enrolam jornais com roteiro típico de Steve Bannon

Estratégia para despistar fuga expõe armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, do complicado declaratório em off

Bolsonaristas enrolam jornais com roteiro típico de Steve Bannon

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça (27), quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.

Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".

Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".

Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.

Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.

O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.

Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.

O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".

A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.

Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".

Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.

Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.

O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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