As jornadas da camisa amarela
Ancelotti sabe que todo mundo olha diferente quando ela surge
A camisa amarela da seleção brasileira completa 90 jogos de Copas do Mundo neste sábado (13), contra o Marrocos.
Com esse uniforme, a seleção conquistou 61 vitórias e teve apenas 12 derrotas —67% de aproveitamento de acordo com o "Almanaque do Brasil nas Copas", de Celso Unzelte e Gustavo Carvalho.
A camisa que mete medo nos rivais não produziu esse sentimento no técnico do Marrocos, Mohammed Ouahbi. "Temos respeito."
Esse amarelo não é de ninguém é e de todos. É do país e dos brasileiros, não é de nenhuma corrente política.
Foi a cor das Diretas Já.
Das Diretas, não da direita.
Símbolos nacionais são roubados por políticos populistas no mundo todo. O partido da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, se chama Fratelli D’Italia.
É o primeiro verso do hino do país, chamado oficialmente "Il Canto Dell’Italiani".
Ou seja, é dos italianos.
O italiano Carlo Ancelotti sabe bem disso e conhece também o valor da camisa amarela. "É um orgulho defender este país."
Refere-se à seleção brasileira como a maior da história. Disse isso em entrevista exclusiva à revista Sportsweek, da Gazzetta Dello Sport.
Falou sobre a coincidência de ter de acabar com uma seca de títulos que começou em 2002, o mesmo ano do início do jejum de Champions League do Real Madrid, encerrado em 2014, com ele no comando da equipe espanhola. "Foi a maior pressão e não fez mal."
O tamanho de Ancelotti é o que parece tirar um pouco da pressão, pelo menos até a primeira derrota.
Derrota? Como assim?
Sim, elas acontecem até com os campeões mundiais. Apesar de o Brasil não saber o que é isso... Ganhou as cinco Copas sem perder nas campanhas. E venceu todas as seis partidas na Copa de 1970 e todas as sete na de 2002.
A Argentina ganhou três Copas perdendo partidas em duas delas. A Espanha perdeu um jogo em 2010 (0 a 1 contra a Suíça), sendo a primeira campeã com derrota na estreia —a segunda foi a seleção de Lionel Messi, há quatro anos, na derrota para a Arábia Saudita.
A Alemanha Ocidental perdeu para a Alemanha Oriental na Copa de 1974 e empatou com a Colômbia na de 1990.
A Itália empatou as três primeiras partidas em 1982, empatou com os Estados Unidos em 2006 e estreou com derrota para a Irlanda em 1994, ano em que só perdeu o título nos pênaltis.
Carlo Ancelotti era assistente técnico daquele time.
Aquela campanha o convenceu de duas coisas.
A primeira é que nem sempre é essencial começar bem, ser brilhante na estreia. Até porque esta é a estreia de rankings mais próximos da história, com o Brasil em sexto e Marrocos em sétimo —em parte porque os marroquinos subiram, em parte porque o Brasil caiu nos últimos anos.
A segunda coisa, que ele sentiu na pele naquela Copa de 1994, tenta agora passar a seus jogadores.
Que a camisa amarela ainda impõe respeito.
Que é um orgulho para alguém que pode vesti-la.
E que todo mundo olha diferente quando ela surge.
É parte da razão de tentarem sequestrá-la em outros momentos, fora da Copa do Mundo.