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'Aquele sobre Matthew Perry' retrata dependência química com franqueza

Documentário da Netflix sobre ator morto em 2023 é uma incursão pelos altos e baixos da doença

'Aquele sobre Matthew Perry' retrata dependência química com franqueza

"Aquele sobre Matthew Perry", o documentário em três partes que a Netflix colocou no ar na semana passada, não traz grandes revelações sobre o ator que durante dez anos viveu o Chandler de "Friends" na TV, como bem apontado pelo colega Maurício Stycer. A partir da trajetória de Perry, porém, a diretora Mary Robertson compõe um retrato cuidadoso e direto sobre dependência química.

Robertson, cuja carreira indica especial interesse na simbiose entre fama e tormento, encontrou material farto na autobiografia "Amigos, Amores e Aquela Coisa Terrível" (ed. Best Seller), lançada no Brasil em 2023, meses antes de o ator morrer aos 54 afogado na banheira de sua casa após uma overdose de cetamina e outras substâncias lícitas e ilícitas.

Mas são as muitas entrevistas que Perry deu sobre sua doença e as dezenas de tentativas de tratá-la,
concedidas antes e depois do lançamento do livro, que dão um efeito especialmente contundente ao documentário.

Entremeadas aos relatos de amigos, colegas, ex-namoradas e da irmã mais nova, Mia, funcionam como uma reconstituição dos altos e baixos vividos por ele da infância, passada na ponte aérea entre a costa leste do Canadá (onde vivia a mãe) e a Califórnia (onde vivia o pai, também ator), ao auge como Chandler, nos anos 1990, e depois na fase seguinte de sua carreira, na qual encontrou dificuldade para replicar o sucesso anterior.

Não que Perry precisasse — "Friends" havia lhe garantido fama, fortuna e um lugar cativo na memória dos fãs para o resto da vida. Chandler sempre se mostrou o mais humano dos seis amigos da série, e isso provavelmente vinha dos pontos de contato naturais entre o personagem e seu intérprete, como ressaltado pelo ator no documentário. A resposta do público a seu sarcasmo explicitamente defensivo, resultado de uma vulnerabilidade latente, foi rápida e crescente.

Essa vulnerabilidade parece ter acompanhado o ator por toda a vida, mesmo quando ele decidiu trazer a público sua doença, o que já era combustível para tabloides e sites sobre celebridades, em uma exposição pública e corajosa rara tanto entre pessoas comuns como entre os famosos.

Robertson se preocupa em mostrar como a doença esteve lá desde sempre, antes da fama, sob a forma de alcoolismo, e depois dela se transpôs para os opioides (receitados ao ator por médicos para tratar a dor de um acidente de jet ski) e mais tarde —fatalmente— para a cetamina, prescrita para amenizar a dependência de álcool e de remédios.

Para quem não é dependente químico nem convive com quem seja, acompanhar as tentativas de tratamento do ator, as recaídas, a vontade de ficar sóbrio e de esclarecer ao público os percalços da doença e desfazer preconceitos é um estudo precioso.

Fãs também podem gostar de relembrar como "Friends" surgiu e como virou um marco geracional televisivo que, embora não tenha envelhecido bem sob alguns aspectos, ainda é capaz de fazer rir e reconfortar quem viveu no mundo pré-11 de Setembro e pré-streaming, quando a TV oferecia catarse.

Mesmo contraposta a algo sombrio como a doença e a morte de um ator cômico brilhante, resta algo solar nessa lembrança que reconforta quem vê o documentário. Eis o legado de Perry.

Fonte original Publicado originalmente por UOL
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