Ana Paula Maia mergulha no horror apocalíptico dos desastres ambientais
Poucos dias antes do lançamento de "O Tenebroso Brilho do Sol", uma geleira desabou no Himalaia e uma avalanche de lama atravessou o vale de Trishuli, no Nepal. As imagens do desastre parecem ter saído diretamente do novo romance de Ana Paula Maia: casas soterradas pelas águas, estradas desaparecidas, uma paisagem reduzida a lama e barro.
O espelhamento é inquietante: como os mortos e os duplos que povoam o romance, suas imagens parecem encontrar uma segunda vida no mundo real.
Finalista do prêmio Booker Internacional de 2026 e uma das vozes mais singulares da literatura brasileira, Maia construiu um universo imediatamente reconhecível, calcado numa prosa seca e precisa, povoado por trabalhadores brutalizados, violência contra humanos e animais e territórios hostis.
Em seu novo romance, breve e explosivo, esse universo se desloca mais claramente para o horror e o sobrenatural, com forte inflexão ambiental.
Eliote é o último morador de um povoado no sul do Brasil devastado pelo rompimento de uma barragem. Perdeu a mulher e os dois filhos e permanece no vale como vigia da represa, enquanto busca obsessivamente os corpos das crianças. Mas ali os mortos nunca desaparecem inteiramente.
Através do ritual da "coberta da alma", antigo costume do povoado, um morador passa uma semana vestido como alguém que morreu, repetindo seus gestos e ocupando seu lugar. Eliote representava Endrick, o irmão cuja morte é cercada de mistério e loucura.
Maia inverte aqui a lógica do rito funerário, obsessão de sua obra: se no romance "Enterre Seus Mortos" o imperativo do título dizia respeito a separar mortos e vivos, aqui uma comunidade inventa um ritual para fazê-los voltar.
Depois da enchente, Eliote repete esse gesto em escala maior e multiplica esses duplos inquietantes. Veste manequins com roupas dos desaparecidos, como se tentasse devolver corpo ao que a água apagou. Ao mesmo tempo, sua identidade começa a se desfazer e se aproxima cada vez mais da de Endrick, que morreu em uma espiral de loucura clarividente, assombrado por imagens e profecias de um futuro devastado.
O protagonista passa a frequentar a floresta, tem visões de orbes luminosas e passa a ocupar a mesma posição perceptiva do irmão. O duplo deixa de ser apenas ritual e ameaça a separação entre ambos. Eliote enlouquece como Endrick ou começa a enxergar aquilo que ele enxergava?
O apocalipse e as figuras proféticas já atravessavam tematicamente a "Trilogia do Fim", conjunto anterior de obras de Maia, mas no novo romance essa ameaça assume escala ambiental.
Endrick imagina um mundo condenado pela própria luminosidade; num gênero acostumado à escuridão, Maia faz da luz uma fonte de terror.
O sol ilumina e violenta, enquanto suas visões aproximam o fim de uma imagem entrópica. Depois de Mariana, Brumadinho e das enchentes no Rio Grande do Sul, esse apocalipse encontra no presente uma paisagem reconhecível.
A força do romance está na precisão com que Maia concentra tudo isso. Suas imagens surgem espaçadas e solitárias, ganhando potência porque permanecem parcialmente inexplicadas.
Mas a concisão cobra um preço: o mundo sugerido por ela parece maior do que as 112 páginas conseguem comportar. É um romance que cresce muito no leitor depois de terminado, embora deixe a sensação de que poderia ter respirado mais.
O horror de Maia encontra sua força nessa zona em que o fantástico já não nos retira do mundo, mas nos devolve a ele sob uma luz mais inquietante. Uma profusão de imagens de territórios devastados, soterrados ou submersos passaram a compor um repertório cada vez mais familiar da catástrofe brasileira.
Não parece casual que parte da ficção recente encontre no horror uma linguagem capaz de lidar com paisagens em transformação e violências que excedem a experiência ordinária.
Em "O Tenebroso Brilho do Sol", o sobrenatural torna visível essa estranheza: o que deveria pertencer ao apocalipse já se parece demais com o presente.
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