A revelação de informações sobre óvnis ameaça a fé?
Filme de Spielberg diz respeito ao medo de que a inteligência extraterrestre poderia provar a inexistência de Deus
O filme "Dia D", de Steven Spielberg, é um filme no qual os personagens discutem se a descoberta de vida extraterrestre seria uma ameaça à religião, algo que muitas pessoas decidiram debater desde que o Pentágono começou a divulgar lotes de arquivos relacionados à óvnis.
A perspectiva não surpreendentemente formal do filme, dado que Spielberg sempre foi obcecado por alienígenas e simpático a ideias e motivos religiosos, é que encontros extraterrestres não precisam ser uma ameaça à fé em Deus. Uma freira que pergunta por que uma divindade "criaria um universo tão vasto, apenas para reservá-lo para nós" parece estar falando pelo próprio filme.
Mas a história também ilustra por que uma das concepções populares de encontros extraterrestres é um potencial desafio à religião organizada, com alienígenas assumindo o papel tradicionalmente ocupado por papas, profetas e místicos, mensageiros angelicais ou o Espírito Santo.
O longa se baseia na mitologia ufológica existente de várias maneiras. Por exemplo, na história de Spielberg, o encobrimento de encontros extraterrestres está sendo gerenciado por uma empresa contratada afiliada ao governo, em vez do Pentágono, algo que vários supostos denunciantes sugeriram que poderia ser verdade em nossa realidade.
Mas quando se trata da natureza dos próprios alienígenas, o filme deliberadamente se inspira em histórias de encontros com óvnis que evocam o sobrenatural, desde a obra "As Variedades da Experiência Religiosa", do filósofo William James, até contos folclóricos sobre o que acontece quando você encontra uma fada na floresta.
É literalmente assim que uma das personagens principais se lembra de ter encontrado alienígenas —em um ambiente de conto de fadas, na infância, onde eles aparecem disfarçados de animais amigáveis. E as experiências que comprovam a veracidade de seus encontros são tiradas diretamente do misticismo religioso: ela fala em línguas estranhas, lê os pensamentos de outras pessoas, e a implicação é que os alienígenas a estão usando para ajudar a humanidade a amadurecer espiritualmente.
O que significa que, se Deus existe no universo do filme, a raça alienígena aparentemente mantém uma relação mais próxima com a divindade do que os seres humanos, e eles estão aqui para agir como intérpretes e agentes da divindade.
E essa ideia —mais uma vez, bastante comum em certos círculos do discurso sobre óvnis— entra em tensão bastante evidente com a crença de que uma escritura já existente ou uma autoridade religiosa estabelecida é o guia mais seguro para a fé e a moral. (De fato, uma implicação natural dos eventos em "Dia D" é que muitas revelações religiosas passadas provavelmente foram mediadas por uma raça alienígena, como no livro de Erich von Däniken dos anos 1960, "Eram os Deuses Astronautas?".)
Antes de esses denunciantes começarem a aparecer, eu me contentava com uma interpretação espiritual do cenário ufológico, na qual relatos de encontros pertencem à categoria de "experiências religiosas estranhas interpretadas através de condições culturais modernas influenciadas pela ficção científica" e não deveríamos esperar que naves espaciais realmente descessem.
E ficarei contente com isso novamente se o governo der o passo que muitas figuras envolvidas no movimento de divulgação estão agora pedindo e emitir proteções formais para qualquer pessoa que se apresente com evidências materiais de programas secretos e tecnologias não humanas.
Quando entrevistei a deputada Anna Paulina Luna, republicana da Flórida (uma das principais defensoras dos segredos sobre óvnis no Congresso), esta foi sua explicação para por que temos tantas afirmações sem evidências confirmatórias: as pessoas que têm as provas temem processos ou retaliação.
Gosto de pensar que, se eu tivesse o tipo de evidência que impulsiona a trama de "Dia D", correria riscos bastante substanciais para ser a pessoa que a revelasse ao público.
Mas para um jornalista, falar é fácil. Então direi apenas que os funcionários do governo que estão tão entusiasmados em divulgar vídeos incomuns deveriam estar igualmente entusiasmados com proteções para denunciantes —que, se não renderem nada além de mais boatos, nos permitirão devolver o debate sobre Deus e alienígenas para Steven Spielberg e William James.