A figurinha ouro e o cartão diamante
De cromos raros a cartões exclusivos, solução individual alimenta o problema coletivo
O menino abre o pacotinho de figurinhas da Copa e grita de alegria. É a figurinha especial bronze de um jogador dos Estados Unidos. A mãe acompanha a cena com um misto de ternura e surpresa e vai ver o menino colar a figurinha no álbum.
A figurinha, porém, não tem lugar no álbum, não existe para ser colada. Ela tem o propósito de ser mostrada ao Gael, ao Enzo e ao Noah, que ademais já têm as figurinhas especiais do Messi e do Cristiano Ronaldo. A felicidade do menino já não é a mesma. Melhor seria a figurinha especial do Yamal ou do Haaland, mas tudo bem.
A ternura da mãe se esvaiu. O álbum da Copa, além de caro, induz uma competição sem sentido entre as crianças.
O pai contemporiza, explica que teria delirado com a figurinha ouro do Ataliba ou do Sócrates e, afinal, criança é assim.
Adultos também são. Marcelos, Ricardos, Danielas e Patrícias têm suas próprias competições. Novos modelos de carros, telefones e roupas exploram essa demanda por status. E quão diferente da figurinha especial ouro é o cartão de crédito diamante ultraplus?
Há muito para admirarmos no sistema de produção e nas economias de mercado de hoje.
Não é fácil fazer uma boa caneta esferográfica. O processo começa com a extração de minerais escondidos no subsolo do planeta, passa por transportá-los entre países e transformá-los em componentes de caneta até a montagem do produto. A caneta é feita com tamanha eficiência que custa menos de R$ 1. Isso equivale a poucos minutos ou segundos do nosso trabalho.
A alta eficiência e o baixo custo de produção da caneta —e de inúmeros outros bens— resultam da busca das empresas por formas de produzir de maneira melhor e mais barata, visando o lucro.
Nem sempre, porém, o objetivo de maximizar o lucro está alinhado com o bem-estar da sociedade.
Por exemplo, as maneiras mais baratas de fabricar um produto podem gerar poluição demais. Economistas conhecem bem a solução para esse tipo de problema. É preciso tributar a poluição ou regular as atividades da indústria. Na teoria, pelo menos, é uma questão simples.
A busca por lucros pode, também, levar empresas a produzir escassez.
A figurinha ouro da Copa do Mundo vale mais que a figurinha especial bronze —é mais cara e deixa a criança mais feliz. O custo de produzir é o mesmo. Por que então a empresa produz seis vezes mais figurinhas bronze que ouro? Justamente porque é a escassez que dá o valor para a figurinha especial, e a maior escassez torna a figurinha ouro tão cara.
O problema é conhecido, mas o que podemos fazer?
No nível do indivíduo, a solução para a criança que se sente mal por não ter as figurinhas especiais é comprá-las —criando mais problema para as crianças que não as têm.
O mesmo vale para quem não tem um perfil na rede social interessante, um cartão de crédito, um telefone ou uma camisa da seleção suficientemente bons para o ambiente em que vive. A solução individual alimenta o problema coletivo.
No nível da sociedade, a solução é difícil. Não queremos que o governo proíba empresas de fazer figurinhas ou cobrar R$ 1.200 por uma bola de futebol. Vários países, porém, estão restringindo o uso de redes sociais.
A liberdade de produzir, quem diria, criou a produção de escassez.