Uma sociedade envelhecida pode não custar tão caro
Uma visão distópica do futuro pode não se concretizar
Estamos em 2100. É um período difícil para quem está em idade produtiva. Além de ter que lidar com a elevação do nível do mar, IAs rebeldes descontroladas e colegas que, 80 anos após a pandemia, ainda não sabem como silenciar o microfone em uma videochamada, seu salário líquido é mísero. Os impostos para financiar o apoio estatal à vasta população grisalha abocanham uma fatia cada vez maior do seu contracheque. Após um século de gastos com saúde crescendo mais rápido que a economia, sobra pouco para qualquer coisa além de remédios, leitos hospitalares e enfermeiros.
A teoria econômica dá respaldo à ficção científica. Os gastos com saúde dependem de quanto custa prestar os serviços e de quanto tratamento é necessário. Em geral, o primeiro fator aumentou ao longo do tempo. Os economistas atribuem isso à doença de custos de Baumol, diagnosticada por William Baumol, um economista americano. Setores tecnologicamente intensivos (como manufatura ou desenvolvimento de software) se tornam mais produtivos. Setores de serviços intensivos em mão de obra, não. Uma consulta médica leva aproximadamente o mesmo tempo que levava há um século. No entanto, a remuneração dos médicos precisa acompanhar os aumentos em indústrias qualificadas de crescimento mais rápido, ou todos os médicos irão trabalhar no setor de tecnologia. (Baumol observou que um quarteto de cordas ainda levava 45 minutos para executar uma obra de Schubert, mas recebia muito mais do que na época em que o compositor era vivo.)
Quanto ao volume de cuidados de saúde, há um debate sobre se a "expansão" supera a "compressão". À medida que o conhecimento médico avança, as pessoas vivem mais, mas não para sempre. Eventualmente, adoecem e morrem. A questão é se o tempo total passado doente se expande à medida que a população envelhece, tornando-se mais debilitada e necessitando de cuidados mais complexos e caros, ou se os mesmos avanços que as mantêm vivas também as mantêm mais saudáveis. A doença ficaria comprimida em apenas alguns anos antes da morte.
Dois novos artigos do National Bureau of Economic Research, um repositório de pensamento econômico, sugerem que a visão de cuidados de saúde devorando receitas tributárias pode não se concretizar. No primeiro, David Cutler e Lev Klarnet, ambos da Universidade Harvard, observam que em 2024 os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5 trilhões) a menos em saúde do que as previsões oficiais de 2010. O segundo é de Liran Einav, da Universidade Stanford, e Amy Finkelstein, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Usando uma pesquisa com usuários do Medicare, o sistema americano de seguro de saúde para idosos, eles descobriram que, enquanto os gastos esperados ao longo da vida com a Previdência Social (ou seja, aposentadorias) aumentaram 14% entre 1993 e 2017, o custo esperado do Medicare aumentou apenas 6%. Isso se deve em parte ao fato de que os americanos idosos têm recebido suas aposentadorias por mais tempo, mas passando menos tempo gravemente doentes.
Os artigos apontam melhorias em ambos os lados da equação. Comecemos pelo custo de fornecer cuidados de saúde em hospitais. Cutler e Klarnet observam que, entre 2000 e 2010, ele subiu consistentemente cerca de 2,3 pontos percentuais acima da inflação —mas que depois algo mudou. Entre 2011 e 2024, os custos hospitalares subiram apenas 0,5 ponto percentual acima dos preços gerais. A tecnologia desempenhou um papel nisso. As melhorias tecnológicas na saúde vêm em dois tipos: algumas são adotadas porque as economias ficam mais ricas e podem se dar ao luxo de tratar novas condições; outras tornam mais barato fornecer os mesmos resultados. Durante grande parte do século passado, o primeiro tipo dominou o segundo. Agora, parece que o segundo tipo assumiu a dianteira. A doença de custos de Baumol acabou sendo curável.
Além disso, menos cuidados de saúde são necessários do que se esperava. Os sistemas de saúde podem ter se tornado mais eficientes em direcionar tratamentos, e as seguradoras, melhores em dizer não. Os idosos também estão ficando mais saudáveis. Einav e Finkelstein apontam que, desde 1993, a expectativa de vida dos americanos aos 66 anos aumentou 2,4 anos, que são (em média) inteiramente saudáveis. Eles podem esperar três anos extras de vida saudável. O tempo passado em sofrimento mental e físico mais severo diminuiu 0,6 ano. Isso significa menos gastos com cuidados residenciais extremamente caros ou ajuda domiciliar para os debilitados.
As melhorias não se limitam aos Estados Unidos. Como este jornal apontou há três anos, os gastos com saúde desaceleraram (como proporção do PIB) em toda a OCDE, um clube de países majoritariamente ricos. Outro artigo recente, de Sheila Diane Smith e Joseph Newhouse no American Journal of Health Economics, faz a mesma observação —e prevê que os gastos per capita crescerão cerca de 2% na próxima década na OCDE (excluindo os Estados Unidos), em comparação com 4% antes de 2009. Os gastos com saúde como proporção do PIB aumentarão apenas um décimo de ponto percentual por ano.
Lado positivo
As boas notícias para os netos não param por aí. Outro novo artigo de trabalho, de Daron Acemoglu, do MIT, e outros, constata que sociedades envelhecidas não são mais pobres. Grande parte da transição demográfica já aconteceu, observam os autores, permitindo que economistas estimem o efeito sobre o crescimento das taxas de natalidade em declínio. Analisando os Estados Unidos, eles descobrem que em áreas com quedas mais acentuadas na fertilidade, o crescimento da produtividade entre pessoas em idade produtiva é maior. Isso, teorizam, ocorre porque esses lugares foram muito melhores em adotar tecnologia que economiza mão de obra. Pode haver mais idosos em 2100, mas os trabalhadores que os sustentam podem ter colegas de IA quântica movidos a fusão compartilhando o fardo.
Isso não significa que tudo está bem. As aposentadorias continuarão sendo um problema caro. Ainda assim, não é um problema insuperável. De acordo com um estudo do Congressional Budget Office, um órgão de fiscalização fiscal, aumentar a idade de aposentadoria americana em três anos, de 67 para 70, cobriria uma grande parte dos custos extras da Previdência Social até 2100. Conseguir essa reforma, ou outras para custear as despesas, através de uma política americana polarizada será difícil. No entanto, a literatura econômica oferece esperança: afinal, a demografia não precisa ser destino.