Um dos coquetéis mais antigos do mundo vem da Escócia
Atholl brose leva uísque, mel e mingau de aveia e data do século 15
Próxima adversária do Brasil na Copa, a Escócia é o túmulo do coquetel. No altar de seu paganismo etílico repousa soberano o copo de uísque, o que basta à maioria dos libadores locais. Natural. Foi lá que o scotch surgiu, ainda que a Irlanda dispute essa primazia. A contagem dos séculos dificulta a verificação. Mas no senso comum, vence o país das Terras Altas. À Irlanda restam os duendes. E boa parte do melhor modernismo na literatura.
Sucede o inesperado: um dos coquetéis mais antigos da história é cria do clima frio escocês. O Atholl brose data do final da Idade Média (ou começo da Idade Moderna), muito antes de ter sido inventada a palavra coquetel. Chamemos de mistura, o que é, essencialmente, a mesma coisa. Na verdade, é quase uma refeição. Pois leva uísque, mel e mingau de aveia (ou algo próximo de um leite de aveia).
Diz a lenda —e a lenda sempre diz— que, no ano de 1475, guerreavam o conde de Atholl, meio-irmão do rei, e o conde de Ross, que havia se rebelado contra a Coroa. Ciente do poço em que bebia o inimigo, o defensor da ordem despejou lá a mistura que levaria seu nome. Ao içar a água batizada com o balde, o conde renegado a experimentou e, embevecido, continuou a tomá-la até ficar num estado tal que se tornou presa fácil. A guerra terminou com um arroto.
Muitas perguntas podem ser levantadas. Ele não estranhou que a água estivesse tão transformada? Estava sozinho? Se não, todos os soldados ficaram embriagados? A lógica é o que menos importa numa lenda. Seria uma estraga-prazeres.
E olha que antes havia outra lenda semelhante, dessa vez com um gigante como vilão. Com sua altura descomunal, ele amedrontava os habitantes dos vilarejos e saqueava suas provisões. O jovem caçador Dougal decidiu enfrentá-lo, armado de astúcia.
Aproveitou que o gigante estava dormindo e, fuçando nas coisas roubadas, encontrou tonéis de uísque, garrafas de mel e montes de aveia. Com uma escada, misturou tudo no caneco desmesurado do monstrão. A bebedeira que se seguiu foi colossal e o galalau foi subjugado (tiveram de usar toda a corda da região para amarrá-lo).
A mistura atravessou os anos e virou tradição na Escócia, mais ou menos como o hot toddy nos EUA. Uma bebida confortável, servida no Ano-Novo e nas Burns Nights, quando se comemora o nascimento do poeta nacional, Robert Burns, que tem, inclusive, um coquetel clássico com seu nome, o Bobby Burns.
A melhor banda escocesa, Cocteau Twins, chegou a fazer uma homenagem à mistura do poço e do gigante. A etérea canção "Athol-brose" está no álbum "Blue Bell Knoll", de 1988. O drinque não é mencionado na letra, nem sequer o ato de beber. Mas a cantora Elisabeth Fraser entoa, com sua voz extraordinária, frases sugestivas, tais como "tente andar lentamente" e "vamos nos afogar".
Se precisarmos afogar as mágoas na Copa, o Atholl brose é uma doce opção —ainda mais se acrescentarmos o Drambuie, licor de uísque, tão escocês quanto a gaita de fole e o Sean Connery.
Atholl brose
- 40 ml de scotch
- 30 ml de leite de aveia
- 10 ml de Drambuie
- 5 ml de xarope de mel
Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupe. Finalize com noz-moscada ralada.