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Um cardápio de apocalipses

IA, clima e guerra nuclear disputam fim do mundo

Um cardápio de apocalipses

Estou com dificuldade em escolher um apocalipse.

A guerra nuclear é muito tradicional. Foi uma ameaça durante muito tempo, depois deixou de ser durante um período relativamente curto, e agora volta a ter o prestígio que já teve. E talvez seja um fim rápido e, por isso, menos doloroso.

Mas agora há a inteligência artificial, que também nos ameaça com a extinção, embora não seja claro se vai destruir a nossa vida roubando-nos o trabalho ou provocando uma guerra nuclear, como nos filmes.

Receio, no entanto, que estes dois apocalipses nos façam esquecer o apocalipse das alterações climáticas.

E há ainda o apocalipse provocado pela burrificação gerada pelos celulares e pelas redes sociais. É o que me mete menos medo, porque eu já era burro muito antes destas inovações tecnológicas. Tenho alguma experiência em viver padecendo de burrice, e não creio que vá ter problemas em adaptar-me a um mundo em que toda a gente que me rodeia também é burra.

A questão é que, sendo todos estes apocalipses plausíveis e até prováveis, preocupa-me o fato de serem muitos. Há uma razão para que o método tradicional de intimidar crianças no sentido de comerem a sopa consista em ameaçar com um bicho-papão.

Dezessete bichos-papões, curiosamente, não assustam tanto. Um bicho-papão concentra a totalidade do nosso medo. Dezessete bichos-papões desvalorizam a moeda do fim do mundo e provocam inflação apocalíptica.

Neste momento, não tenho disponibilidade emocional para acompanhar os apocalipses todos —e sou uma pessoa especialmente talhada para acreditar em apocalipses. Não preciso de muitos indícios. Basta-me ver um jovem com as calças a meio da bunda, revelando as cuecas, para sentir que o fim do mundo está próximo.

Mas a acumulação de apocalipses faz com que a minha ansiedade se disperse. Vou escolher um e preocupar-me com esse. Opto pelo apocalipse da inteligência artificial, que me parece o mais fácil de evitar. Já tive muitas tranqueiras tecnológicas e nunca houve uma que funcionasse perfeitamente durante muito tempo.

O aspecto mais fantasioso do "Exterminador do Futuro" é o fato de, em 90 minutos de filme, não ter sido preciso desligar e voltar a ligar o Arnold Schwarzenegger. Isso, sim, é ficção científica.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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