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Ultrarricos de todo o mundo estão migrando como nunca antes

Setor de migração por investimento alcança US$ 40 bi oferecendo fuga de imposto e instabilidade política

15/06/2026 09:07 Folha de S. Paulo 0 visualizações há 5 horas
Ultrarricos de todo o mundo estão migrando como nunca antes

Estes são tempos inquietantes, mesmo para os ricos. Muitos daqueles com patrimônio suficiente para se mudar para o exterior em busca de impostos mais baixos ou de segurança física ou política estão menos certos atualmente sobre se estabelecer em Dubai ou Hong Kong, até mesmo nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Mas não é preciso derramar lágrimas, pois muitos governos continuam ansiosos para receber estrangeiros com dinheiro e habilidades, e uma indústria crescente de consultores de confiança está pronta para ajudar os ricos a se relocarem.

Para esses conselheiros, os negócios estão em alta. No ano passado, mais de 140 mil milionários migraram, o maior número já registrado, segundo a New World Wealth, uma empresa de pesquisa; este ano, a expectativa é que o número chegue a 165 mil (veja o gráfico). A IMI, outra empresa de pesquisa, estima que a indústria de migração por investimento —que assessora tanto ricos aspirantes a expatriados quanto governos em busca de investimento e talentos— movimentou US$ 40 bilhões (R$ 203 bilhões) em 2025, o dobro de 2019.

A IMI contabiliza mais de 1.200 empresas prestando serviços de migração por investimento. Elas incluem escritórios de advocacia, fornecedores de imóveis ou fundos de investimento vinculados à cidadania ou residência, contadores e assim por diante.

Até o Irã atacar os estados do Golfo, um destino favorito era Dubai, lar de um número crescente de milionários. Um advogado de imigração descreve o emirado como o Walmart do setor, com inúmeros prestadores de serviços e taxas extremamente competitivas. O local atraiu principalmente pessoas ricas do Sul Global: sul da Ásia, mas também Nigéria e a Síria e o Líbano devastados pela guerra.

Profissionais do setor agora relatam interesse crescente em migração entre ocidentais abastados. Muitos britânicos ricos começaram a procurar opções após a pandemia. Em 2025, eles se candidataram a 23 programas de migração por investimento administrados por governos estrangeiros, incluindo o programa EB-5 dos Estados Unidos e programas em Granada e Tailândia.

Em outras partes da Europa, a preocupação com impostos sobre patrimônio é um estímulo. A Henley & Partners, uma consultoria, publica uma lista anual dos principais países de onde os milionários estão fugindo e para onde estão indo. No ano passado, França, Alemanha e Espanha apareceram pela primeira vez entre os países que repeliam mais habitantes ricos do que atraíam.

Mas a maior mudança está nos Estados Unidos —lar de mais de um terço das pessoas do mundo com patrimônio de US$ 30 milhões (R$ 152 milhões) ou mais, segundo a Knight Frank, uma empresa imobiliária. "Os EUA passaram de um ponto fora da curva para o mercado principal", diz Ronald Klasko, advogado na Filadélfia. Em 2024, ao perceber que mais americanos estavam buscando orientação sobre cidadania e residência no exterior, ele fundou a Exodus Migration, uma consultoria de migração por investimento. Ele afirma que a maioria dos clientes está interessada em se mudar para a Europa, porque estão preocupados com a direção política dos Estados Unidos, querem uma residência alternativa ou querem poder viajar sem passaporte americano.

Apesar dessas ressalvas, e do fato de os Estados Unidos proibirem cidadãos de alguns países, o país ainda atrai muitos estrangeiros ricos. A demanda pelo programa EB-5, que exige investimento de pelo menos US$ 800 mil (R$ 4,07 milhões) no país, é alta —embora isso possa ser porque o limite deve subir para cerca de US$ 900 mil (R$ 4,57 milhões) no início do próximo ano. (Advogados relatam "demanda muito baixa" pelo visto "Gold Card" de Donald Trump, que custa US$ 1 milhão, ou R$ 5,08 milhões, por membro da família e tem uma base legal incerta.)

Muitos outros lugares estão ansiosos para entrar nessa onda. São Vicente e Granadinas, no Caribe, anunciou em dezembro que estava abrindo um programa de cidadania por investimento que chamou de "pilar econômico crítico". Uzbequistão, Maldivas e Nauru pediram à Henley para projetar e desenvolver programas.

No entanto, os ricos podem descobrir que uma recepção calorosa às vezes esfria. Em janeiro de 2025, a Espanha, outrora um destino popular, cancelou seu programa de residência de € 500 mil (R$ 2,93 milhões) em um esforço para conter a especulação imobiliária. Em abril, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que o programa de Malta violava a legislação da UE porque "comercializava" a cidadania (embora o programa de "cidadania por mérito" da ilha, que admite empreendedores, tenha ganhado força desde então).

Em abril deste ano, a Argentina cancelou uma licitação para criar um programa de migração por investimento, lançada apenas em dezembro, que havia atraído interesse de 11 empresas. No mês passado, Portugal estendeu o tempo de espera para passaportes da maioria dos migrantes de cinco para dez anos.

Muitos governos estão enfrentando pressão para aumentar a diligência de seus programas de cidadania e residência, observa Klasko. A grande questão é: "Você, como país, conhece o histórico das pessoas a quem está concedendo passaportes?" Em outras palavras, a incerteza geopolítica não preocupa apenas os ricos. Mas muitos países vão aceitá-los —e muitos consultores estão ansiosos para ajudá-los a escolher.

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