Toparia entrar em um caixão e ouvir seu obituário?
Lena Giuliano já escreveu 200 obituários de pessoas vivas
"Faltam 40 minutos para a hora da sua morte." Foi esta mensagem que chegou ao meu celular.
"Chegue dez minutos antes para se acostumar ao caixão", dizia o complemento, enviado pela equipe da artista, performer e dramaturga Lena Giuliano, 23, que há pelo menos dois anos roda o mundo fazendo obituário de… gente viva!
Naquele domingo, a performance "Escrevendo na Cova de Alguém" acontecia na avenida Paulista, em São Paulo. Havia uma máquina de escrever, uma coroa de flores, um aparelho de som e um caixão. Acompanhei a breve entrevista que a dramaturga fazia com um jovem rapaz. Depois de alguns minutos, ele entrou no caixão e ela começou a escrever. Com uma música de fundo, leu o obituário:
"Felipe Feitosa da Silva recebe visitantes alienígenas em sua superfície em forma de vulcão em outro planeta. O funeral de Felipe foi uma grande festa. Seus amigos fumaram maconha ao redor do caixão ao som de Demi Lovato. Talvez ela esteja no mesmo planeta de Felipe."
A rua acabava de se tornar um funeral a céu aberto, e o morto-vivo saía realizado. "Me senti valorizado, como se eu fosse uma pessoa querida. Nunca imaginei que viveria meu funeral em vida. Indico. Venham morrer aqui. Com essa experiência, entendi que preciso aproveitar minha vida para que minha morte seja uma passagem gratificante", contou Felipe.
Eu era a próxima. Estava ansiosa. Senti que havia um ouvido e um olhar muito atentos à minha história, dando uma sensação de acolhimento. Ela me fez perguntas simples, mas que valem a vida toda: o meu grande sonho enquanto escritora e também como eu desejava morrer. Eu sei que parece estranho pensar nisso, mas idealizar por um instante a nossa morte passa também por organizar a forma como queremos viver. "Quero morrer igual à minha avó, Laurentina, aos 96 anos, tomando banho sozinha antes do suspiro derradeiro", revelei.
"Qual música você gostaria que tocasse em seu funeral?", foi a pergunta seguinte. Então, lembrei do primeiro samba que meu pai me ensinou: "Tempo Bom", de Chico da Silva: "que tempo bom, que não volta nunca mais". E pedi também "O Meu Lugar", de Arlindo Cruz.
Ela finalizou a entrevista e me conduziu até o caixão. Tirei os sapatos. Estava de batom vermelho e vestido, pois eu é que não iria morrer feia, não é mesmo? Deitei, fechei os olhos e comecei a ouvir as músicas escolhidas. Me deu uma emoção tão grande lembrar do meu pai e da minha avó. Ao mesmo tempo, fiquei triste em saber que, na verdade, eu não iria saber a reação de ninguém. Lena se aproximou e leu o obituário que fez para mim, me emocionando ainda mais.
"Jéssica Moreira está eternamente sambando no além. Ela morreu bem velha, no quarto encantado da sua avó, depois de tomar banho e preparar seu almoço preferido. Ela está enterrada no cemitério do bairro onde morou a vida toda, junto com sua família. Sua casa se transformou em um museu para celebrar sua vida e toda sua obra literária. Jéssica é lembrada pelas suas palavras e por ter sentado muito cedo ao lado da morte. A morte a tratou com carinho, retribuindo todo o esforço da escritora Jéssica Moreira em vida. Na eternidade e nas linhas do papel, Jéssica achou seu lugar entre caixões e trilhos de trem."
Abri os olhos e havia pelo menos umas 20 pessoas ao redor do caixão. Me desculpem, mas não pude me conter e comecei a gargalhar. Era uma situação que nunca pensei vivenciar (risos). A sensação era de celebração, não de tristeza. Um influencer fazia uma live no TikTok com mais de 500 pessoas, e o número não parava de crescer. A morte dos outros sempre desperta curiosidade.
"Algumas dizem que querem fazer o obituário, mas não vão se deitar no caixão", diz Lena. "Outras imaginam que vou fechar a tampa e deixá-las presas lá dentro." Em mais de 200 obituários já escritos, apenas um homem se negou a deitar no caixão, ela conta. Os demais se surpreendem com o conforto do dormitório e há quem chegue preparado para "morrer". "Vem gente vestida de gótico, com a roupa com que gostaria de ser enterrada; leva flores ou algum objeto especial."
Também há quem não queira participar diretamente e prefere apenas assistir às histórias dos outros. Outras inventam um nome, por pura superstição e para não ver o próprio nome escrito em um obituário.
"O obituário acaba se tornando um objetivo de vida. Quando pensamos na morte, pensamos também na vida e até colam o texto na parede de casa. Alguns dizem que querem brilhar e viajar pelo mundo. Então, exagero naquilo que é bom."
Lena começou a desenvolver a performance em 2024, no processo de criação da peça "Perros: Diálogos Caninos", em que tutores escreviam uma carta para seu cachorro ou vice-versa. "Muitos daqueles cachorros já tinham morrido. Comecei a fazer obituários para eles. Na mesma época, comprei minha máquina de escrever, quando pensei em escrever também de pessoas."
A ideia do caixão surgiu só depois, porque Lena não queria que as pessoas ficassem olhando para ela enquanto escrevia o obituário. A ideia tomou ainda mais fôlego quando ela foi contemplada pelo edital internacional One to One Art Project, que fomenta a realização de performances artísticas por diversos países europeus. Passou 20 dias desenvolvendo o trabalho no interior da Croácia, apresentou a performance na Finlândia e em Lisboa. De volta ao Brasil, transformou a experiência no tema de seu trabalho de conclusão de curso em Artes Cênicas na USP.
"Ao falar de morte com as pessoas, fiz muitos amigos e ouvi coisas que talvez elas nunca tivessem contado para ninguém", diz a dramaturga. "Tenho acesso a uma intimidade muito grande, aos desejos e imaginários de pessoas que, muitas vezes, são completamente desconhecidas para mim e que talvez eu nunca mais encontre."
SERVIÇO
Exposição de obituários "Escrevi na Cova de Alguém"
De 13/11 a 21/12, no Instituto Capobianco (rua Álvaro de Carvalho, 97), em São Paulo
Comentários 0
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.