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Setor audiovisual teme retaliações em eventual governo de Flávio Bolsonaro

Lula é criticado por medidas tímidas de incentivo ao cinema

Setor audiovisual teme retaliações em eventual governo de Flávio Bolsonaro

Profissionais do audiovisual estão aflitos com o resultado das eleições presidenciais deste domingo (25). As áreas de cinema e televisão, afinal, foram amplamente afetadas por cortes de gastos, atrasos em editais e retaliações durante o mandato de Jair Bolsonaro.

O setor também teve desavenças com o governo Lula, porém. Há críticas à gestão de Margareth Menezes no Ministério da Cultura por ser branda em dois temas: a Lei de Cota de Tela e a regulamentação do streaming, parada no Senado desde novembro.

O aborrecimento, porém, é suave comparado ao temor de uma possível eleição de Flávio Bolsonaro. Produtores, distribuidores, diretores e atores ouvidos pela reportagem receiam que, caso eleito, o político do PL retome a agenda do pai para a cultura. A gestão foi marcada por interferência e cortes de verba à Ancine, a Agência Nacional do Cinema, e por tentativas de boicote a produções com temáticas ligadas a alas progressistas, como a população LGBTQIA+ e memória da ditadura militar.

Nomes próximos à campanha de Flávio, porém, dizem que a Ancine será mantida junto a uma agenda menos hostil que a adotada por Jair. Por outro lado, tramita no Congresso um projeto de lei de autoria do deputado federal Capitão Augusto, do PL, mesmo partido do candidato à Presidência, que quer extinguir a agência.

O setor reconhece a retomada de incentivos ao cinema por Lula e teme que Flávio se feche ao diálogo. "O governo de extrema direita despreza a cultura e não considera o impacto econômico dela na economia", diz Andrea Barata Ribeiro, sócia e produtora executiva da O2 Filmes, sobre uma eventual volta do bolsonarismo.

A ausência de propostas culturais no plano de Flávio amplia a desconfiança do setor. "Quais são os planos para a área num país importante como o Brasil?", questiona Kleber Mendonça Filho, diretor de "O Agente Secreto".

Já a ala conservadora do setor audiovisual espera que Flávio seja mais moderado que Jair. "Eu não vejo espaço para uma gestão ideológica ou de guerra cultural como foi a do Mario Frias", diz o cineasta Josias Teófilo, diretor do documentário sobre Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo. Ele se refere ao ex-ministro da Cultura de Bolsonaro, cotado para voltar ao posto sob Flávio.

Teófilo critica a descentralização de editais pela gestão de Menezes e a aplicação de critérios regionais, de gênero e raça para os repasses de verba. Segundo ele, a pulverização de recursos prejudicou o Sudeste, onde estão a maioria das produtoras e salas de cinema. "A esquerda tem visto a cultura como assistencialismo, distribuição de renda, em vez de valorizar o mérito artístico e o resultado concreto dos filmes", diz.

Procurada, a produtora Brasil Paralelo, com obras de viés conservador, não respondeu às tentativas de contato da reportagem.

A medida criticada por Teófilo é comemorada pela parte progressista do setor. "Quero que o presidente Lula seja reeleito pela visão de diversidade que ele tem e que o governo dele tem para o Brasil. Somos um país diverso em povo, em cultura", diz Mendonça Filho.

Na campanha de "O Agente Secreto" ao Oscar, o diretor pernambucano falou à imprensa internacional, com Wagner Moura, sobre tentativas de censura sofridas durante o governo Bolsonaro.

"O Agente Secreto" foi parcialmente financiado com dinheiro público antes de Bolsonaro ser eleito em 2018. Depois disso, cortes de verba destinados ao Fundo Setorial do Audiovisual, responsável por financiar produções, somados à lentidão da Ancine, fizeram com que muitas histórias não saíssem do papel.

"Marighella", de Moura, sobre o guerrilheiro que lutou contra a ditadura, foi atacado por Bolsonaro e, previsto para 2019, só estreou dois anos depois por atrasos da Ancine. Na época, Moura disse que os entraves tinham motivação política.

Bolsonaro foi o primeiro presidente a não assinar a Cota de Tela desde sua criação durante o governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001. A norma reserva espaço para filmes brasileiros nos cinemas.

A regra voltou com Lula, há três anos, mas não trouxe mudanças esperadas por produtoras independentes. Sem diversificação de gênero e com metas anuais, poucos longas tendem a concentrar sessões.

Neste ano, essa brecha levou o Cinemark a exibir a animação "Zuzubalândia" mais de cem vezes ao dia. Em agosto, as principais redes do país voltaram a exibir filmes do primeiro semestre no horário da manhã para cumprir a cota.

Algo similar aconteceu com a regulamentação do streaming, pauta considerada prioritária pelo setor. A lei instituirá taxas sobre empresas como Netflix, Prime Video e HBO, e o dinheiro arrecadado será revertido para a produção nacional, como acontece em países como França e Coreia do Sul. O texto elaborado pelo governo e aprovado no Congresso, porém, foi acusado de favorecer multinacionais estrangeiras.

Por outro lado, caso Flávio seja eleito, a expectativa é que não haja regulamentação sobre grandes empresas de tecnologia americanas, dados os acenos do senador a Donald Trump. "O governo Lula sempre ajudou a construir a cultura e a linguagem de nosso Brasil. Claro que existem muitos pontos que podem ser melhorados. Mas é um governo que tem escuta e diálogo", diz Ribeiro, da O2.

O apoio ao presidente ficou claro em dois dos maiores eventos cinematográficos do país, o Festival do Rio e a Mostra de Cinema de São Paulo. Nas sessões dos dois eventos, era expressiva a quantidade de espectadores que compareciam às salas de cinema com adesivos da campanha petista colados às roupas. Debates e outros eventos, como premières e cerimônias, também foram marcados por falas contrárias a Flávio por parte de nomes de projeção no cinema nacional.

Na abertura da Mostra, Rodrigo Teixeira, produtor de "Ainda Estou Aqui", fez o "L" no palco. Nos corredores, organizadores dos dois eventos lembravam os cortes de patrocínio da gestão Bolsonaro.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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