Salve Carmen!
A história de Carmen Miranda no Rio ainda conserva endereços que renderiam um tour
Há anos, numa reportagem para Serafina, saudosa revista da Folha ("Menina do Rio", 26/4/2009), propus a quem se interessasse um tour por Carmen Miranda no Rio. Iria de 1909, quando ela chegou de Portugal aos 10 meses, até 1939, quando embarcou para a glória nos EUA. Compunha-se dos endereços onde morou e de lugares marcantes na sua vida, quase todos no centro da cidade. Alguns tinham escapado à sanha demolidora; nos demais, o número passara a abrigar outra coisa. Não importava: Carmen, um dia, estivera neles.
Citei a rua Mayrink Veiga, 15, onde ficava a fabulosa Rádio Mayrink Veiga, da qual Carmen foi a maior estrela. No outro lado da rua, existira a primeira barbearia do pai de Carmen, "seu" Pinto, quando ela ainda era garota. Entre outros, citei também a rua do Passeio, 78, na Cinelândia, a rua do Ouvidor, 141, e a rua Gonçalves Dias, 55, endereços dos ateliês e lojas de artigos masculinos onde Carmen trabalhou como balconista antes da fama e já chamava a atenção dos fregueses.
Mas os principais eram os residenciais. Pela ordem, a rua Senhor dos Passos, 59, no Saara, onde morou de 1910 a 1912; a rua da Candelária, 50 (atual 94), de 1912 a 1915; a rua Joaquim Silva, 4, na Lapa, de 1916 a 1925; a Travessa do Comércio, 13, de 1926 a 1932; a rua André Cavalcanti, 229, em Santa Teresa, de 1932 a 1934; a rua Silveira Martins, 12 (atual 20), no Catete, em 1935; e a avenida São Sebastião, 131, na Urca, de 1935 a 1939. Todos ainda de pé, menos o da Lapa.
Pois agora há outro prestes a desabar, e logo o mais famoso: o da Travessa do Comércio, adjacente à praça 15. Todos se chocam com o estado do imóvel. É tombado pelo Iphan, mas está desocupado há anos e vive sendo invadido. Em 2024, parte do telhado caiu e seus vizinhos o cercaram com um tapume e uma faixa implorando "Salve Carmen!". Mas nada se fez e o casarão está servindo de acesso a ladrões para assaltar à noite as lojas ao lado.
A Prefeitura do Rio não tem ideia da importância internacional da carioca Carmen para a cidade e de seu potencial turístico. Aliás, não sabe nada sobre ela.
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