Rússia e Ucrânia se atacam horas após anunciar negociação
Rivais seguem padrão que antecede conversa mediada pelos EUA, e também trocam corpos de soldados
Poucas horas após o anúncio da reabertura de negociações pela paz na Ucrânia, as forças de Moscou e de Kiev trocaram ataques aéreos intensos mirando as capitais adversárias ao longo da madrugada desta quinta-feira (22).
As ações seguiram padrão de episódios em que conversas estavam sendo costuradas antes, com os dois rivais na guerra iniciada por Vladimir Putin em 2022 escalando suas ações no intento de demonstrar força ante os mediadores americanos.
Foram lançados ao menos 21 mísseis balísticos em três ondas contra Kiev, além de mísseis e outros aviões-robôs contra diversas regiões. Ao menos 2 pessoas morreram e 34 ficaram feridas. O alvo foi novamente o sistema energético do país, abalado antes da chegada do inverno europeu.
Na mão contrária, as forças de Volodimir Zelenski lançaram um mega-ataque mirando Moscou, envolvendo ao menos 650 drones. Segundo o Ministério da Defesa russo, todos foram abatidos, mas destroços feriram duas pessoas em uma cidade da região administrativa da capital.
Também seguindo um padrão de sinalizações que antecedem negociações, houve uma troca de corpos de soldados mediada por Belarus. Os russos entregaram 252 cadáveres e os ucranianos, 25.
A nova iniciativa do governo de Donald Trump de tentar acabar com a guerra que ele havia prometido paralisar em 24 horas na campanha eleitoral de 2024 tomou corpo nesta semana.
Na terça (20), o negociador Steve Witkoff esteve em Oslo com Zelenski, viajando para São Petersburgo para um encontro mais demorado com Putin no dia seguinte. Na reunião, o líder russo disse que aceita reabrir negociações com os vizinhos na presença dos americanos.
O presidente ucraniano concordou, e quando as comitivas estiverem definidas a reunião deverá ser marcada para algum momento na primeira quinzena de novembro.
O Kremlin manteve a fleuma, com o assessor Iuri Uchakov dizendo que as novas concessões ventiladas por Zelenski a Witkoff "ainda não nos satisfazem completamente".
A visita do enviado de Trump, com a presença por videoconferência de seu usual parceiro de empreitadas Jared Kushner, deu sequência à guinada do republicano em favor da posição russa na guerra.
Segundo o jornal britânico Financial Times, o americano voltou a sugerir o encontro que a China vinha costurando entre Trump, Putin e o líder Xi Jinping para discutir um acordo sobre a Ucrânia —sem a presença de Kiev, para protesto de Zelenski.
A reunião poderá acontecer às margens da cúpula dos países da Ásia-Pacífico, no mês que vem na cidade chinesa de Shenzhen.
Apesar das sinalizações, ainda há o que Witkoff disse ser "muito trabalho à frente". Segundo uma pessoa com conhecimento do assunto em Moscou disse à Folha, Zelenski disse ao americano que aceitaria ceder o controle da região oriental do Donbass em troca da presença de forças da Otan na Ucrânia.
Em público, o ucraniano só admitiu até aqui congelar as linhas de frente, que garantem quase todo o controle do Donbass e outras duas regiões para Moscou, mas a fim de negociar o status futuro. Hoje Putin ocupa quase 20% do país. Já o Kremlin não aceita de forma alguma forças estrangeiras no vizinho.
É uma novela já vista várias vezes desde que Trump voltou à Casa Branca, no ano passado. Em outras ocasiões, ele também rifou a Ucrânia para pressionar Zelenski a ceder, mas acabou por se frustrar com Putin.
Desta vez, contudo, o americano tem um objetivo político: as eleições de meio de mandato em novembro, nas quais seu partido pode perder o controle do Congresso. Para tanto, tentou amenizar a inflação de combustíveis causada primariamente por sua guerra no Irã fechando um acordo de compra de diesel de Putin.
Com isso, ele dribla o embargo europeu ao produto russo, que obrigou um redirecionamento do derivado para outros mercados, como Índia, China e Brasil. Os ataques de Kiev a refinarias russas, contudo, obrigaram Putin a interromper a exportação.
Agora, Trump pressiona Zelenski a parar com as ações, colocando o ucraniano em uma situação difícil. O americano deu também outros sinais, interrompendo avisos prévios a Kiev de lançamento de mísseis balísticos russos, suspendendo o envio de mísseis de interceptação comprados por europeus para a Ucrânia e tolhendo o serviço de satélite militar no país invadido.
Comentários 0
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.