Revenda de jatos particulares rende lucro de milhões a proprietários
Demanda por aeronaves e atrasos na produção aquecem o mercado de usados
Londres |Financial Times Pessoas ricas estão ganhando milhões de dólares ao revender modelos cobiçados de jatos particulares pouco depois de recebê-los, no mais recente sinal da expansão do setor.
A forte demanda por viagens aéreas privadas, somada aos atrasos de produção provocados por restrições na cadeia de suprimentos, elevou os preços e levou os compradores originais a revender os jatos assim que são entregues, segundo especialistas do setor.
"Qualquer pessoa que receba um novo jato de grande porte provavelmente encontrará um mercado de revenda aquecido", afirmou Oliver Tebbit, sócio da equipe aeroespacial do escritório de advocacia HFW.
Um executivo do setor a par da situação diz que percebe o movimento de pessoas que vendem jatos assim que os recebem, e a demanda forte fica mais evidente no mercado secundário.
O boom da inteligência artificial ajudou a impulsionar a demanda no mercado de jatos particulares, com o surgimento de uma nova classe de super-ricos que fizeram fortuna no setor de tecnologia. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam problemas logísticos que afetam toda a indústria, entre eles a escassez de peças fundidas e forjadas e de mão de obra.
Como resultado, as carteiras de pedidos dos grandes fabricantes de jatos executivos cresceram mais rapidamente do que a capacidade das empresas de produzir as aeronaves.
Tebbit afirmou que quem encomendar um jato hoje poderá ter de esperar até 2029 ou 2030 pela entrega, o que empurra os clientes para o mercado de usados.
Um Gulfstream G700 novo, que, segundo especialistas em fretamento, costuma custar cerca de US$ 80 milhões antes da personalização, poderia ser vendido com um ágio de 10%, disse ele.
Barbara Pansadoro, sócia da Addleshaw Goddard, afirmou: "Dependendo do modelo e do tipo de aeronave, o preço pode subir bastante —vários milhões" acima do valor original de compra.
Representantes do setor dizem que outro motivo para o boom na demanda por jatos particulares é a lei "big, beautiful bill" (grande e belo projeto de lei) , do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sancionada em 2025.
Pansadoro afirmou que o mecanismo de "depreciação adicional" previsto na lei, que permite a uma empresa abater integralmente o custo da aeronave de seus impostos no primeiro ano de propriedade, estimulou a demanda.
Anteriormente, os compradores originais revendiam com lucro seus contratos de compra antes da entrega, mas os fabricantes passaram a restringir essa prática, disse Mike Francis, chefe de financiamento de aviação do Citi, "porque ela afetava a capacidade deles de controlar os preços no mercado".
Agora, os compradores originais —tanto pessoas físicas quanto empresas— tendem a revender a aeronave no momento da entrega ou logo depois, afirmou.
Um consultor disse que uma empresa de capital aberto havia encomendado um jato particular há três anos por US$ 77 milhões e o vendeu por US$ 84 milhões quando foi entregue, há seis meses. Segundo ele, a aeronave agora está sendo oferecida de forma privada por um valor na faixa intermediária dos US$ 90 milhões.
Os contratos podem variar de acordo com cada cliente. Segundo o executivo do setor, os contratos-padrão costumam conter uma cláusula que proíbe o comprador de vender a aeronave antes da entrega.
Os compradores que optam por embolsar um lucro substancial com um ativo que normalmente se desvaloriza estão recorrendo, em vez disso, a empresas de aviação privada como a NetJets, que oferecem propriedade fracionada ou um número garantido de horas de voo, disseram consultores.
"Se você tem a oportunidade de ganhar US$ 10 milhões sem fazer esforço algum, por que não aproveitaria?", disse Francis, do Citi.
A General Dynamics, grupo de defesa dos Estados Unidos proprietário da Gulfstream, e a Bombardier, fabricante dos jatos Challenger, não quiseram comentar.
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