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Quem disse que os velhos são fascistas e golpistas?

A velhofobia que associa a velhice à direita não é só perigosa, mas criminosa

Quem disse que os velhos são fascistas e golpistas?

Em 25 de janeiro de 2023, publiquei na Folha uma coluna com o título "Não são velhos fascistas; são fascistas que envelheceram".

Após a invasão das sedes dos Três Poderes, no dia 8 de janeiro, fui bombardeada por uma mesma pergunta: "Por que você não escreve sobre os velhos fascistas e golpistas que apoiam psicopatas genocidas e se identificam com eles?".

Respondi que só consigo escrever sobre aquilo que pesquiso e nunca pesquisei velhos fascistas e golpistas. Aliás, fascistas e golpistas existem em todas as idades, não é mesmo? E eles envelhecem... Ou será que alguém acredita que eles se tornaram fascistas e golpistas depois dos 60 anos?

Em entrevista para a BBC com o título: "Associar idosos à radicalização e à extrema direita é velhofobia", afirmei que o discurso que associa os mais velhos ao fascismo não é só perigoso, mas criminoso. Se antes ouvíamos que velhos são "teimosos", "inúteis" e "gagás", naquele momento estávamos ouvindo que eles são "fascistas, golpistas e de extrema direita".

Destaquei que ainda estávamos sofrendo com a morte de mais de 716 mil brasileiros, com o descaso com a vacinação e com os discursos velhofóbicos que foram disseminados durante a pandemia de Covid-19: "Velhos têm que morrer mesmo, vai ser até bom para a Previdência. Eles são um peso para a economia. O grande problema do Brasil é que todo mundo quer viver até 100 anos".

Muito antes dessa onda velhofóbica, publiquei na Folha uma coluna com o título "Velho é lindo!", em setembro de 2013.

Nela, contei que tive um sonho que mudou a minha vida. No sonho, eu estava dando aula e dizia para os meus alunos e alunas: "A única categoria social que inclui todo mundo é velho. Somos classificados como homem ou mulher, homo ou hétero, negro ou branco. Mas velho todo mundo é. O jovem de hoje é o velho de amanhã. Por isso, como nos movimentos libertários do século passado do tipo "black is beautiful", deveríamos vestir uma camiseta com os dizeres: "Eu também sou velho!" ou, melhor ainda, "Velho é lindo!"

Fomos em passeata até Copacabana, todos unidos, os velhos de hoje e os velhos de amanhã, vestindo camisetas e levando cartazes.

Na manifestação, inspirada em Martin Luther King, fiz um discurso apaixonado: "Eu tenho um sonho que um dia o velho será considerado lindo e que poderemos viver em uma nação em que as pessoas não serão julgadas pelas rugas da sua pele, e sim pela beleza do seu caráter. Livres! Somos livres, enfim!"

Acordei de madrugada repetindo alegremente a frase: "Somos livres, enfim!". E com vontade de ir para Copacabana me manifestar gritando: "Eu também sou velha!" e "Velho é lindo!"

Nas eleições de 2026, meu sonho se tornou realidade. Os velhos provaram que não são invisíveis, descartáveis nem um peso para a sociedade. Fui a manifestações em Copacabana, junto dos velhos de hoje e dos velhos de amanhã, gritar em defesa da nossa democracia, liberdade e soberania. Fiquei emocionada com homens e mulheres de mais de 70, 80, 90 anos e até de 100 anos indo votar, muitos de cadeiras de rodas e de bengalas, junto dos seus filhos e netos.

Por que estou escrevendo sobre um sonho de 2013? Não é para responder aos que me cobraram: "Você precisa escrever sobre os velhos fascistas e golpistas", até porque sou incapaz de escrever sobre fascistas e golpistas de qualquer idade.

É só para lembrar que, quando denuncio a velhofobia, não é uma mera opinião de uma "especialista" em envelhecimento, mas a luta de uma antropóloga apaixonada que escuta, convive, aprende, respeita, admira, confia e ama profundamente os seus melhores amigos nonagenários e centenários. Livres, somos livres enfim!

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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