'Orkhéstra Phántasma' aprofunda inquietações de Felipe Hirsch
Diretor habita o caos em espetáculo que costura vozes, memórias e ruídos
Há muito ruído, som e fúria em "Orkhéstra Phántasma". Para construir seu novo espetáculo, Felipe Hirsch convida antigos espectros e espíritos a habitar o palco. Volta ao ponto em que havia parado em 2024, quando encenou "Agora Era Tudo Tão Velho – Fantasmagoria IV".
Na ocasião, o diretor levava a obra a certo paroxismo —colocava em xeque os limites da linguagem teatral. Acumulava cenas, situações que se repetiam, caminhos que levavam a lugar nenhum. Ele mesmo anunciava um encerramento de fase ali.
No programa de "Orkhéstra Phántasma", o diretor chega a fazer um mea culpa. Explica que, na época de "Fantasmagoria", andava mal-humorado: "Não me sentia bem em servir às expectativas de uma audiência tão exigente do que gostaria de ouvir e como."
Eis que, no espetáculo atual, Hirsch manobra o que parecia um beco sem saída e prossegue. A nova encenação encontra um jeito de sustentar esse impulso experimental. Não porque organize o caos, mas porque aceita habitá-lo.
"Orkhestra Phántasma" pode ser lida como um prosseguimento e aprofundamento de algumas inquietações estéticas de seu criador. David Foster Wallace, Peter Handke, Beatles, Thomas Hobbes, Kurt Schwitters –além de serem referências explícitas na dramaturgia, esses pensadores e artistas são um eixo estruturante da peça.
Peguemos o exemplo de Schwitters: a despeito de sua proximidade com os dadaístas, sua arte ultrapassava o niilismo para chegar à ideia de que a arte está em tudo. A partir de materiais tidos como lixo ou de pouco valor, ele fazia colagens e criava novas obras. E isso valia tanto para objetos quanto para as palavras.
Na dramaturgia fragmentária e coletiva tecida por Hirsch, Caetano W. Galindo e Juaar, o público assiste ao funcionamento de uma incessante fábrica de maquinações, barulhos, conversas e digressões. Não por acaso dá-se a escolha de uma estação de rádio como princípio dramatúrgico. Ao contrário da televisão e do cinema, o rádio não organiza o olhar. Tudo se dá a partir da escuta: uma voz chamando a outra, as músicas acionando memórias, os ruídos despertando sensações e produzindo imagens mentais.
A recepção da transmissão radiofônica não depende da luminosidade. Ela pode ocorrer no escuro; as vozes não são vistas. A escuridão é o terreno da fantasia, da construção de significado a partir de fragmentos dos sentidos. A iluminação de Beto Bruel opera na penumbra. No palco escuro, abre janelas de claridade e cores, como a sublinhar que não vemos o todo, apenas fragmentos, instantes.
Para dar conta desse universo, impõe-se também um cuidado com todos os elementos sonoros da montagem. As camadas de ruídos, amplificações e sons distorcidos se encontram harmonicamente com a voz de uma soprano e com intérpretes que ocupam faixas distintas: Georgette Fadel abre a encenação com choro e gracejos de bebê, Roberta Estrela D’Alva introduz a calma falseada de uma instrutora de tai chi chuan, Pascoal da Conceição traz um tom grave, mais solene.
A esses intérpretes, recorrentes nas encenações mais recentes do diretor, somam-se Milla Fernandez e Renato Livera. Destaque na cena carioca de 2025, ambos encontram um lugar seguro e oportuno nessa orquestra, trazendo um respiro cômico à dinâmica. Impressiona que, em uma encenação com tantas qualidades técnicas, o artesanal trabalho de composição dos atores tenha tanto vigor.
Na primeira hora de espetáculo —são três, ao todo— é como se as regras do jogo estivessem sendo postas à mesa. Gradativamente entende-se o funcionamento das cenas, o papel de cada um dos intérpretes, a ideia de que estamos a acompanhar a transmissão de uma emissora de rádio caótica. Na segunda metade da obra, é como se a dinâmica já estivesse estabelecida e isso tornasse mais fácil a fruição. O que parecia disperso vai revelando uma composição rigorosa.
Se as cenas surgem sem uma sequência evidente, não significa que estamos diante de uma narrativa inexistente, mas de uma narrativa onírica. Assim como nos sonhos, não existe linearidade, mas colagens como as de Schwitters.
Opera uma lógica de outra natureza, que funciona pela associação livre, pela música, pela própria repetição, pela memória. Quando as luzes do teatro se acendem, as vozes continuam reverberando, como em uma estação de rádio.