Operação mira políticos suspeitos de ligação com facção TCP no Rio
Investigação apura interferência para impedir demolição de
Uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro cumpre, nesta quinta (18), 14 mandados de busca e apreensão contra agentes públicos suspeitos de envolvimento com o TCP (Terceiro Comando Puro), facção apontada como a segunda maior organização do tráfico de drogas do estado.
A investigação apura a atuação de políticos e ex-agentes públicos que teriam utilizado seus cargos e influência para beneficiar interesses do grupo criminoso, como o atraso na demolição de resorts que seriam ligados a traficantes.
Entre os alvos está o deputado estadual Val Ceasa (PRD). Também são investigados o ex-vereador do Rio Ulisses Marins (União Brasil) e um ex-assessor parlamentar, atualmente funcionário de uma empresa pública de energia. A reportagem tenta contato com a defesa dos investigados.
Segundo as apurações, os investigados teriam procurado integrantes da Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa destinada à demolição de imóveis utilizados pelo TCP em Parada de Lucas, região que integra o Complexo de Israel, principal reduto da facção na zona norte do Rio.
O Complexo de Israel, formado por cinco comunidades, é a base dos traficantes autointitulados evangélicos que, segundo investigações da polícia, utilizam do narcopentecostalismo para expansão territorial.
De acordo com a investigação, os suspeitos teriam utilizado a influência dos cargos públicos para tentar impedir a ação policial, alegando que os imóveis eram destinados à prestação de serviços sociais. A interferência gerou atrasos na demolição.
Entre os imóveis que seriam demolidos estava o resort atribuído ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, apontado como líder do TCP. Localizado em uma área de preservação ambiental em Parada de Lucas, o complexo possuía piscinas, monte de oração, sauna, pedalinhos e um lago com carpas. Segundo a investigação, os agentes públicos atuaram para tentar evitar a demolição do local. A derrubada ocorreu em março de 2025, após ser suspensa em data anterior.
Os mandados são cumpridos em endereços na capital fluminense, incluindo a Assembleia Legislativa do Rio, e no Espírito Santo. Durante as buscas desta quinta, agentes apreenderam cerca de R$ 166 mil em espécie na residência de Val Ceasa. De acordo com os investigadores, aproximadamente R$ 150 mil foram encontrados em outros endereços ligados ao parlamentar.
Na entrada da Alerj, Val Ceasa comentou as acusações e negou qualquer relação com o empreendimento. "Já fui a batalhão para pedir liberação de carnaval, de festa junina, mas nunca vi esse tal resort. Não conheço. Eu trabalho para os humildes", afirmou.
O deputado também disse ter procurado o prefeito Eduardo Paes para sugerir que fosse construída uma Vila Olímpica na área onde funcionava o resort demolido.Questionado sobre uma faixa instalada em frente ao local dias antes da demolição, que exibia seu nome e mencionava a existência de um suposto projeto social no resort, Val Ceasa interrompeu a entrevista e deixou o local.
Em nota, a Alerj informou que acompanha a operação. "A Casa reforça seu compromisso com a transparência e coloca-se à disposição para prestar toda a colaboração necessária ao andamento das investigações. A Alerj reitera que atua com austeridade e compromisso com o povo fluminense", afirmou.
A Prefeitura do Rio também se manifestou. Em nota, informou que o ex-vereador Ulisses de Almeida Marins não integra os quadros de servidores municipais. Segundo a administração municipal, atos publicados em 10 de novembro de 2025 para sua nomeação foram tornados sem efeito em 17 de novembro do mesmo ano, após análise da Secretaria Municipal de Integridade, que reprovou a indicação.
A operação é realizada por policiais da Ciaf (Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro) e por integrantes da Coordenadoria de Segurança e Inteligência da Promotoria.