Ônibus elétricos com troca de baterias
Conversão de estações de recarga em armazenadores de energia converte algo desperdiçado atualmente em uso em transporte de massa
Com os 1.259 ônibus elétricos já em operação (1.070 a bateria + 189 trólebus) e a entrega de mais 500 veículos nesse domingo (21), 13% da frota total do município de São Paulo passa a ser eletrificada, graças a financiamentos contratados pela prefeitura junto a bancos públicos (BNDES e Caixa) e instituições internacionais, em montante superior a R$ 6 bilhões.
Outros municípios têm dificuldade em seguir o exemplo devido ao ainda elevado custo dos veículos e ao impacto da recarga sobre as redes de distribuição de energia elétrica. Ainda assim, tudo considerado —investimento e custo de manutenção—, a opção elétrica tem ficado cada vez mais atraente. Principalmente quando se considera a queda do custo das baterias e a possibilidade de recarregá-las nas horas ensolaradas, quando a energia poderia ser grátis.
Ao contrário do carregamento convencional, que usa a rede elétrica apenas na janela horária da madrugada, quando a maioria dos ônibus não circula e a eletricidade tem custo, a opção por baterias intercambiáveis permite deslocar o carregamento para as horas de superávit de geração renovável. As estações de troca poderiam funcionar como sistemas descentralizados de armazenamento de energia em larga escala.
Explicando melhor: quando há sobra de energia e ocorre o "curtailment", o preço deveria ser zero ou negativo. Ainda não é assim porque existe uma regulação obsoleta fixando um preço mínimo.
Qualquer futuro aperfeiçoamento do marco regulatório deverá eliminar esta restrição, já que a economia funciona melhor quando o preço sinaliza corretamente a escassez ou a abundância de qualquer produto, inclusive a energia.
Seria possível adotar um modelo de negócios que separe a propriedade do chassi do ônibus de seu componente mais caro, a bateria. Essa desvinculação permitiria que empresas de propósito específico adquiram e gerenciem as baterias, comercializando a energia e a disponibilidade do ativo na modalidade de serviço. E o custo de aquisição do veículo cairia para patamares equivalentes aos dos modelos tradicionais a diesel.
Na China, essa opção tecnológica já é adotada em Pequim, Xiamen e Fuzhou. Os ônibus urbanos entram na baia e, em menos de 5 minutos, um sistema robotizado substitui o pacote de baterias descarregado por um cheio. O operador do ônibus paga uma tarifa combinada baseada no consumo por quilômetro rodado e na assinatura de disponibilidade.
Nas grandes metrópoles brasileiras, com mais de 250 mil habitantes, a frota operacional é de aproximadamente 22 mil ônibus, responsáveis por 1.320 milhões de quilômetros rodados por ano. Considerando o consumo médio de 1,5 kWh/km de veículos refrigerados, o consumo energético anual dessa eletrificação totalizaria cerca de 2.000 GWh (apenas 6% de toda a energia eólica e solar desperdiçada no país, em 2025).
Essas considerações iniciais são insuficientes para afirmar que o modelo de troca de baterias é economicamente viável. Mas sugerem que a proposta merece aprofundamento.
A conversão de estações de recarga em armazenadores de energia elétrica converte energia atualmente desperdiçada em energia útil para o transporte de massa. Armazenar o sol em baterias dos ônibus parece ser uma forma inteligente de sintonizar a mobilidade urbana com a nossa fartura energética.