Ofensivas e negociações fracassam diante da expansão do narcotráfico na Colômbia
Antes de acordo de paz, Washington forneceu assistência militar a Bogotá para conduzir campanha contra as Farc
Nora Taquanas pensou que a estabilidade havia finalmente chegado à sua região rural da Colômbia em 2016, quando o governo assinou um acordo de paz com o maior grupo guerrilheiro do país para encerrar meio século de insurgência.
Uma década depois, ela diz que o conflito na província de Cauca, no sudoeste do país, entre o oceano Pacífico e o sopé dos Andes, está "realmente muito mais intenso agora".
"No passado, você podia identificar um grupo, sentar com as pessoas envolvidas, conversar sobre as coisas", diz Taquanas, uma líder de 35 anos de uma comunidade indígena. "Agora estamos lidando com grupos movidos principalmente por interesses econômicos."
Hoje, os rebeldes de esquerda que assinaram o acordo de paz de 2016, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foram substituídos por grupos armados que focam o tráfico de drogas para lucro em vez de lutar pelo marxismo.
Eles aumentaram massivamente a produção de cocaína e desenvolveram novos mercados para ela. O resultado é que o crime organizado e a violência estão se tornando questões centrais de Antuérpia e Dubai ao Rio de Janeiro.
Em determinado momento de 2019, Taquanas teve de fugir de casa enquanto estava grávida, quando homens armados que buscavam expandir seu território mataram cinco pessoas na vila e a ameaçaram.
O mesmo padrão foi observado em grandes partes da Colômbia, onde a produção de cocaína mais que triplicou na última década, com grande parte da nova produção indo para a Europa.
Para a própria Colômbia, o aumento na produção demonstra como os longos conflitos civis do país agora estão sendo impulsionados por exércitos privados com fins lucrativos, financiados pelo hábito mundial de consumo de cocaína.
Esse processo se acelerou sob o governo do presidente que está deixando o cargo, Gustavo Petro, ele próprio um ex-guerrilheiro de esquerda, que lançou uma nova iniciativa de negociação em 2022 com todos os grupos armados.
Pedro Sánchez, ministro da Defesa desde março do ano passado, disse ao Financial Times que algumas gangues do crime organizado "se aproveitaram da boa vontade do governo para aumentar sua produção".
Impulsionados pelas receitas crescentes da cocaína, eles tomaram mais território e se expandiram para a mineração ilegal de ouro e o tráfico de pessoas. Cerca de 50% dos municípios da Colômbia abrigam um grupo armado, segundo a Acled, um grupo de pesquisa.
Como lidar com os exércitos ilegais será uma questão crucial em uma eleição presidencial altamente polarizada, cujo segundo turno ocorre no domingo (21), entre Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda.
De la Espriella, um advogado criminalista de extrema direita com talento para as redes sociais, está prometendo uma nova "ofensiva militar" contra os grupos narcotraficantes, enquanto Cepeda, um senador de esquerda e filho de um líder do Partido Comunista morto por grupos armados, favorece as negociações.
Nos bastidores está o governo Trump, ansioso para adotar uma abordagem muito mais militarizada para combater o que chama de grupos "narcoterroristas" em toda a América Latina.
Juan Manuel Santos, o ex-presidente que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por negociar o acordo de 2016, diz que os desafios das facções criminosas da Colômbia se espalharam por toda a região.
"O vácuo [na Colômbia] deveria ter sido preenchido pelo Estado, mas em vez disso foi preenchido por outros grupos criminosos, que são verdadeiras máfias", diz Santos. "Não é apenas um problema colombiano, é um problema de toda a América Latina."
A nova geração de gangues armadas na Colômbia introduziu maior profissionalismo na produção de cocaína, que está operando em uma escala muito maior.
Novas variedades de cultivos de coca foram desenvolvidas, práticas agrícolas melhoradas e métodos de processamento mais sofisticados adotados, permitindo que mais cocaína seja produzida de cada folha.
Em alguns lugares, drones são usados para aplicar fertilizantes nas plantações. Os rendimentos dobraram nas últimas duas décadas, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
Os laboratórios de cocaína, antes estruturas precárias escondidas na selva, agora são maiores e mais sofisticados. Há dois anos, os militares colombianos encontraram uma instalação em Putumayo que podia processar cinco toneladas por mês.
Essas técnicas agora estão sendo aplicadas em uma área muito maior. Segundo a ONU, a quantidade de terra na Colômbia onde a coca é cultivada aumentou cerca de 50% de 2018 a 2023, para 253 mil hectares.
A fumigação aérea de plantações suspeitas de coca foi amplamente proibida após uma decisão judicial de 2015, ajudando a acelerar a expansão da produção.
O rápido aumento na produção causou uma queda nos preços da coca em 2022, que em determinado momento haviam caído pelo menos pela metade. No entanto, em vez de forçar uma reestruturação na produção, os grupos do crime organizado responderam encontrando nova demanda.
A Europa em particular viu um aumento dramático na disponibilidade de cocaína e na incidência de crimes relacionados a drogas. O continente agora consome quase tanta cocaína quanto os EUA e, segundo a Agência Europeia de Drogas, os países membros apreenderam 419 toneladas de cocaína em 2023 (o último ano para o qual há dados), o sétimo ano recorde consecutivo.
Em uma apreensão em 2023, a polícia alemã em Düsseldorf confiscou 35,5 toneladas de cocaína, avaliadas em € 2,6 bilhões, após uma denúncia de colegas colombianos. Um juiz na Bélgica disse no ano passado que o país corria o risco de se tornar um "narcoestado" por causa da infiltração de portos, polícia e até do judiciário belga por criminosos organizados.
"A expansão do consumo na Europa é a história dos últimos cinco anos", diz Elizabeth Dickinson, diretora adjunta para a América Latina no International Crisis Group em Bogotá. "O consumo nos EUA está estável, mas a Europa continua crescendo."
O controle sobre grandes extensões de território e rotas de contrabando forneceu uma plataforma para as gangues de drogas entrarem em outras indústrias ilícitas.
Muitas agora estão fortemente envolvidas na mineração ilegal de ouro, que se tornou um negócio próspero à medida que o preço do metal disparou. Especialistas dizem que houve casos de gangues de drogas usando as mesmas redes logísticas para exportar cocaína e importar o mercúrio usado na mineração artesanal para extrair ouro do minério.
O tráfico de pessoas é outro negócio paralelo em crescimento. Nos últimos anos, centenas de milhares de refugiados tentaram chegar aos EUA através de uma área remota ao longo da fronteira Colômbia-Panamá conhecida como Tapón del Darién.
O Clan del Golfo, que controla grande parte do território no lado colombiano da fronteira, usa seu domínio para extorquir taxas substanciais de potenciais migrantes.
Sijifredo Paví, que assim como Taquanas é natural de Toribio, em Cauca, diz que a área desfrutou de dois anos de paz após o acordo de 2016 com as Farc antes que outros grupos começassem a disputar o controle.
"Ficamos presos entre diferentes grupos, e não entendíamos", diz Paví. "E esses grupos eram financiados pelo narcotráfico e interesses de mineração."
Para as Farc, a cocaína era mais um meio do que um fim. Formado por rebeldes sem-terra que abraçaram o marxismo, o grupo financiou sua luta brutal contra o Estado colombiano através de extorsão e sequestro antes de se voltar para as drogas nos anos 1980.
As Farc não estavam envolvidas diretamente na fabricação de cocaína, mas, além de taxar os cultivadores de coca, forneciam uma série de serviços aos traficantes de drogas, incluindo proteção para laboratórios de processamento e rotas de contrabando. A polícia colombiana estimou em 2013 que as Farc efetivamente controlavam 60% do comércio de cocaína.
Quando o grupo começou a se desarmar em 2016, houve pânico entre os traficantes de drogas do mundo. Grupos que iam do cartel de Sinaloa no México à máfia albanesa viajaram para a selva colombiana para garantir suprimentos e investir em novos produtores.
A nova cadeia de suprimentos é muito mais fragmentada e especializada, com operações de nicho fornecendo habilidades específicas. Mas três grupos separados emergiram como as fontes dominantes de cocaína.
Um é outro grupo guerrilheiro, o Exército de Libertação Nacional (ELN), cujas raízes também estão na política violenta de esquerda dos anos 1960 e que agora também tem uma presença substancial na Venezuela.
O segundo grupo é composto por membros radicais das ex-Farc que rejeitaram o acordo de paz de 2016 e estabeleceram organizações dissidentes que agora são atores importantes no comércio de cocaína.
Depois há o Clan del Golfo, fundado por membros dos grupos paramilitares de direita que surgiram nos anos 1990 para combater guerrilheiros de esquerda, mas que se transformou em um grupo de crime organizado.
É o maior beneficiário do acordo de 2016. Uma reportagem recente na mídia colombiana revelou que ele tem uma estrutura de gestão como uma multinacional, com divisões específicas para atividades como recrutamento ou supervisão de laboratórios de processamento.
"O Clan del Golfo é agora a maior organização criminosa da Colômbia", diz María Victoria Llorente, diretora executiva da Fundación Ideas para la Paz (FIP), um centro de estudos em Bogotá. "É uma síntese de todos os conflitos que tivemos na Colômbia nos últimos 40 anos, e de todos os erros que cometemos."
Como esses grupos foram autorizados a tomar o lugar das Farc é objeto de um feroz jogo de culpas na Colômbia, em parte porque aconteceu tanto sob Iván Duque, um conservador que foi presidente de 2018 a 2022, quanto sob seu sucessor Petro, que defendeu uma estratégia de "Paz total" envolvendo conversas com todos os grupos armados.
Rubiel Lis Velasco, de Caldono, outro município em Cauca que viu muito conflito nos últimos anos, diz que o acordo de paz de 2016 despertou enorme otimismo na região.
"Havia muita esperança, porque pensávamos que haveria investimento social que realmente chegaria às comunidades e melhoraria a vida das pessoas", diz ele. "Mas o que vimos em vez disso foi o processo de paz sendo despedaçado. Os governos da época basicamente o desmontaram."
Depois de repreender Duque por não seguir o acordo de paz, Petro lançou seu plano de paz total em 2022. A lógica era que, a menos que todos os grupos estivessem envolvidos, alguns poderiam relutar em se desarmar por medo de que outros simplesmente tomassem seu território.
Mas os críticos dizem que a implementação foi fatalmente falha, com pouca coordenação ou objetivos claros. "Eles realmente acharam que poderiam simplesmente sentar e ter uma conversa honesta com essa gente e que os grupos não aproveitariam isso para expandir suas operações", diz Dickinson.
A taxa de homicídios no novo negócio de narcóticos está bem abaixo dos níveis registrados durante a década de 1990, quando o barão das drogas Pablo Escobar travava uma batalha contra o Estado colombiano. Mas extorsões e sequestros aumentaram nos últimos quatro anos à medida que grupos do crime organizado se expandiram.
Segundo as autoridades colombianas, o número de pessoas envolvidas em grupos armados aumentou de 12.883 em 2018 para 27.121 no final do ano passado.
"A chamada política de paz total foi um fracasso completo", diz Humberto de la Calle, ex-vice-presidente que foi o negociador-chefe do acordo de 2016. "Não há um único grupo que esteja mais fraco do que estava há quatro anos."
No segundo turno presidencial de domingo, os eleitores colombianos escolherão entre duas visões muito diferentes de como lidar com a expansão dos grupos armados.
Cepeda, o candidato de esquerda, foi um dos arquitetos da estratégia "Paz total" e ainda acredita que apenas negociações podem resolver a crise. Mas ele disse pouco sobre como conduziria tais conversas, nem deu uma explicação para o porquê de a abordagem do governo Petro ter fracassado tão gravemente.
O plano de De la Espriella também é escasso em detalhes, mas cheio de promessas. Ele descartou qualquer negociação e estabeleceu a meta de "neutralizar ou capturar" dez líderes de grupos do crime organizado nos primeiros 90 dias.
"Vou exterminar o narcoterrorismo e aqueles que declarei como alvo militar como baratas, como ratos", disse ele a um entrevistador.
Cidadão com dupla nacionalidade americana e colombiana, ele também quer um Plano Colômbia 2.0, uma nova versão do programa de ajuda lançado em 2000, no qual Washington forneceu assistência militar substancial ao governo em Bogotá para conduzir sua campanha contra as Farc.
De la Espriella recebeu apoio entusiasmado do presidente americano Donald Trump, que o chamou de "líder inteligente, forte e duro", enquanto denunciava Cepeda como um "marxista radical de esquerda".
Em março, os EUA conduziram uma operação militar conjunta contra um suposto grupo de tráfico de
drogas no vizinho Equador, que alguns analistas acreditam poder se tornar um modelo em outros países.
"A única maneira de derrotar esses inimigos é liberando o poder de nossas forças militares", disse Trump em março, em uma cúpula de líderes de direita da região em seu campo de golfe em Doral, Flórida.
Mas para muitos observadores, há limitações no que qualquer nova ofensiva militar pode alcançar. Enquanto as Farc operavam a partir de acampamentos na selva, muitos dos grupos armados atuais vivem e operam entre as comunidades locais que controlam.
"O problema é muito mais difícil hoje porque são grupos criminosos que têm presença dentro da população", diz de la Calle, o ex-vice-presidente. "Se você enviar os militares para algumas dessas áreas, em quem eles vão atirar?"
Santos diz que a única maneira de resolver a questão é usar a estrutura por trás do acordo de paz de 2016 com as Farc. Isso envolveu pressão militar significativa sobre grupos armados —mas também deveria incluir políticas para promover desenvolvimento econômico e substituição de cultivos, um aumento massivo da presença policial e um processo para julgar crimes anteriores.
"Essa é a única maneira de recuperar o controle do território", diz ele.