O sentido do fim
Percepção da finitude torna o presente mais vívido e precioso
"Vocês sabem da morte como sabem da existência dos planetas; apenas intelectualmente."
Lembrei-me dessa frase —dita por meu pai em um almoço íntimo, quando comemorava seus 70 anos, com minha mãe, seus cinco filhos, noras e genros— ao ler uma bela crônica de José Eduardo Agualusa no jornal O Globo, intitulada "A última infância".
Meu pai desenvolvia sua ideia, dizendo que a natureza era sábia em proporcionar apenas em um momento mais avançado da vida, esse sentimento do "Fim" como vivência interna, uma sensação material forte o suficiente para nortear o próximo rumo.
No mesmo almoço, ele comentou sua decisão de aposentar-se de sua atividade como executivo bancário. Quando lhe foi perguntado sobre o que faria a seguir, respondeu, em tom de brincadeira, que de início faria como os burros, ao término da jornada nas antigas fazendas de café: corcovearia, rolaria na grama e zurraria. Depois acrescentou, sério, que se aposentava porque ainda julgava ter suficiente energia para se propor novos desafios.
Agualusa também fala dessa percepção tardia da morte: "Entre a infância e a velhice, passamos décadas fazendo de conta que a morte não existe", e completa: "A última infância começa quando já não é possível ignorá-la".
Dou-me conta de que já atingi esse ponto. Não sei dizer em que momento dos anos recentes, sem ser convidada, se imiscuiu em meus pensamentos —e, por conseguinte, em minhas ações— a ideia de que a vida não vai durar para sempre.
Não é uma ideia que eu precise convocar; ela simplesmente está lá. Está "delicadamente", se posso colocar assim; não berra, não esperneia, não quer chamar a atenção; apenas se posta discretamente como pano de fundo.
Em algumas situações, recomenda que eu tome providências práticas para facilitar a vida dos que me sucederão. Mas, com frequência muito maior, apenas pede que eu me dê conta da qualidade especial de um momento que eu esteja vivendo e o saboreie.
Em sua crônica, Agualusa cita um trecho da entrevista concedida a Fernanda Mena, nesta Folha, por Rosa Montero, que, aos 75 anos, está lançando no Brasil seu livro "A Carne" (Todavia): "Quando você começa a ficar bem mais velha, como começa a acontecer comigo, há uma sensação tão vertiginosa de que o tempo está acabando que a vida começa a ficar mais intensa. É bonito. Há uma sensação de que cada momento está pintado de purpurina, de cores, de faíscas, de luzes. Porque cada momento importa, é bonito e vale a pena".
A consciência do "Fim" não apenas confere um colorido especial aos momentos presentes que vivemos como amplia nossa sensibilidade em situações em que contemplamos o passado a partir de uma idade mais avançada.
Foi o que me ocorreu recentemente no Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, no Rio de Janeiro, onde se organizou um seminário em memória do economista Chico Lopes, falecido em maio último —e sobre quem versou minha coluna do mesmo mês.
Emocionei-me ao ver reunidos tantos economistas brilhantes —André Lara Resende, Edmar Bacha, Persio Arida, Rogério Werneck, entre muitos outros—, homens que investiram uma parte importante de suas vidas na grande obra que foi a estruturação do Departamento de Economia da PUC-Rio, todos na casa dos 70, ou mais, confrontando a passagem do tempo e homenageando o colega tão admirado e querido. Foi tocante testemunhar como os laços originais são perceptíveis, mesmo sob a poeira do tempo, que os conduziu por caminhos tão diversos.
Lembrei-me do filme "Carruagens de Fogo", de que meu pai gostava especialmente. Também ali, em um serviço memorial em 1978, um grupo de homens, já idosos, homenageia o companheiro com quem dividiram a ousadia e as emoções das Olimpíadas de 1924. A juventude, como experiência compartilhada, adquire uma nova dimensão quando vista à distância de décadas.
Um momento especial no seminário —daqueles que Rosa Montero diria "estarem pintados de purpurina"— foi o relato de Pedro Bodin sobre seu antigo mestre, Chico Lopes. Depois de discorrer sobre o histórico de relacionamento entre ambos —foram diretores do Banco Central em momentos distintos—, Pedro relatou um almoço, poucos meses antes do falecimento de Chico.
O economista que aliava o interesse por diversos assuntos à capacidade de aprofundar-se neles comentou então sobre o conceito de "Eterno Retorno", em Nietzsche. O filósofo imagina um demônio que lhe apareça e diga que esta vida, tal como você a viveu e vive, terá de ser vivida inúmeras vezes, com cada dor, cada prazer, cada pensamento, na mesma ordem, até os mínimos detalhes. Ante a pergunta de como reagiria a esse vaticínio, Nietzsche, na interpretação corrente, entende que feliz seria aquele que pudesse querer a própria vida de novo, inteira e sem descontos.
O belo e surpreendente para Pedro —e para os que o ouvíamos no seminário— foi ouvir que Chico, cuja vida foi violentamente alterada e cuja carreira pública foi injustamente abortada pelo caso Marka-FonteCindam, afirmou considerar-se um homem feliz no sentido nietzschiano, já que aceitaria de bom grado repetir a própria existência sem nenhuma alteração.
Agualusa nos conta que sua mãe, aos 90 anos, lhe disse que os últimos 20 anos haviam sido os melhores de sua vida, entre outras coisas porque "já não tinha que prestar contas a ninguém".
Creio que meu pai não diria que seus últimos anos de vida foram os mais felizes. Apesar do êxito no desafio profissional que se propôs —defender a expansão e a difusão do ensino técnico profissionalizante no Brasil—, seus últimos anos foram penosos. Como ele me disse em uma das nossas frequentes conversas, "a vida me pregou uma peça". Referia-se à doença de minha mãe —uma forma de Alzheimer—, que foi longa e impediu que usufruíssem tudo que haviam construído juntos.
Na vida, é preciso ter sorte também. Ainda assim, viveu tão bem, por tantos anos, que não tenho dúvidas de que —assim como Chico Lopes— teria dito "sim" incontinenti à proposta do eterno retorno.
Quanto a mim, tampouco tenho qualquer dúvida de que aceitaria, mas acho que isso é fácil de dizer, quando ainda mal adentramos a última infância.
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