O que um bolão da Copa ensina sobre investimentos
Torneio nos lembra que nem sempre o melhor resultado revela a melhor decisão
A Copa do Mundo desperta um comportamento curioso. Mesmo pessoas que normalmente não acompanham futebol acabam participando de bolões. De repente, todos acham que podem prever quem será o campeão e qual será o placar de cada jogo e, às vezes, até dizer o placar e quais serão os times na final. Existe um prazer quase irresistível em tentar adivinhar o futuro.
Talvez seja justamente aí que esteja a maior lição que um simples bolão pode nos ensinar.
Quando o campeonato termina, quase sempre há alguém que acertou uma sequência improvável de resultados. Rapidamente essa pessoa ganha fama de especialista. Afinal, quem acertou mais deve entender mais de futebol.
Mas essa conclusão nem sempre é verdadeira.
É claro que conhecer os times, acompanhar os jogadores e entender de futebol aumenta as chances de fazer bons palpites. Da mesma forma que estudar economia e analisar empresas e produtos aumenta as chances de tomar melhores decisões de investimento. O problema é acreditar que esse conhecimento nos permite controlar todo o resultado de forma precisa.
Não permite.
Uma expulsão inesperada, uma lesão, um desvio na bola, uma defesa milagrosa ou um pênalti perdido podem mudar completamente o destino de uma partida. Da mesma forma, uma guerra, uma pandemia, uma mudança política, uma inovação tecnológica ou uma crise financeira podem alterar completamente o desempenho de um investimento.
A psicóloga Ellen Langer chamou esse comportamento de "ilusão de controle": a tendência de acreditar que exercemos influência sobre acontecimentos que, na realidade, dependem em grande parte do acaso.
Já o psicólogo e prêmio Nobel de Economia Daniel Kahneman mostrou que também temos o hábito de julgar a qualidade de uma decisão apenas pelo resultado que ela produziu, esquecendo que o futuro sempre carrega um grau inevitável de incerteza.
Nos investimentos, esse erro aparece todos os dias.
Passamos horas tentando descobrir qual ação vai subir mais forte, quando os juros começarão a cair, onde estará o dólar no fim do ano ou qual fundo terá o melhor desempenho. Gastamos enorme energia tentando prever variáveis que simplesmente não controlamos.
Enquanto isso, muitas vezes deixamos em segundo plano aquilo que realmente depende de nós. Nosso planejamento financeiro.
Controlamos quanto poupamos todos os meses. Controlamos a disciplina de continuar investindo mesmo durante períodos difíceis. Controlamos a diversificação da carteira, os riscos que assumimos e o tempo que permanecemos investidos. Também controlamos decisões fundamentais para proteger nosso patrimônio, como contratar um seguro adequado e organizar o planejamento sucessório da família.
Perceba a diferença. Não controlamos o retorno que um investimento entregará no próximo ano. Mas controlamos o valor do próximo aporte. Não controlamos quando surgirá a próxima crise. Mas controlamos o quanto estaremos preparados para enfrentá-la.
O filósofo estoico Epicteto ensinava que a serenidade nasce quando aprendemos a distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não depende. Poucas ideias descrevem tão bem o comportamento de um bom investidor.
Investir não é um bolão. Não vence quem adivinha o futuro. Vence quem constrói um processo capaz de atravessar diferentes cenários, sabendo que a incerteza nunca desaparecerá.
Talvez essa seja a maior lição da Copa do Mundo. O problema nunca foi errar um placar. O problema é passar a vida tentando controlar resultados que jamais estarão totalmente em nossas mãos, enquanto negligenciamos as decisões que realmente podem transformar nosso futuro financeiro.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.