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O que os estudantes têm a ensinar à França hoje

Jovens expressam desencanto com democracia liberal que lhes prometeu um futuro promissor e não entregou

O que os estudantes têm a ensinar à França hoje

A turista neozelandesa, inconformada por não poder usar o seu ingresso, interpelou estudantes da École du Louvre que bloqueavam a entrada do museu. Eles seguravam cartazes em apoio aos secundaristas franceses, alvos da repressão policial nos últimos dias. "Vocês não têm vergonha de passar uma imagem tão ruim do seu país?"

A pergunta é tão deslocada quanto a resposta do governo Emmanuel Macron para uma crise social que abala não só a França. Desde que os estudantes secundaristas foram às ruas, cobrando melhores escolas, até o pico das manifestações, com depredações inaceitáveis em várias cidades, o que se viu nos escalões do poder foi o intento de reduzir tudo ao fenômeno difuso da violência urbana.

Parte da imprensa local segue essa toada ao chamar, indiscriminadamente, os manifestantes de "casseurs". Ou, vândalos. Assim como os políticos, jornalistas desviam de um olhar mais abrangente, a revelar que a mobilização já ganhou outros segmentos da sociedade (pessoas mais velhas, de diferentes estratos), até grupos radicalizados, como os Coletes Amarelos.

O que Macron, seus ministros e alguns prefeitos fazem é impor toques de recolher para restabelecer a ordem. Insistem na "resposta pavloviana": um reflexo condicionado que tolhe as liberdades individuais, em troca de uma proteção temporária e relativa. Afinal, a segurança pública no país, desde o ataque ao jornal Charlie Hebdo, em 2015, passando por outros atentados com dezenas de mortos, teve seus momentos falhos.

Em algum momento será preciso destrinchar o que move essa cólera social e por que ela pode minar a democracia. No fundo, os estudantes estão dizendo que a França não funciona para eles. Sabem dos problemas de um país endividado, com baixo crescimento econômico, inflação e custo de vida altos, perda de postos de trabalho e qualidade declinante dos serviços públicos. Que motivos têm para festejar?

Temos visto em várias partes da Europa eleitores "ansiosos economicamente" se aproximarem dos extremos políticos, para assumir suas falsas promessas. Não por outro motivo, as forças que hoje despontam na campanha presidencial francesa são a ultradireita de Marine Le Pen e a ultraesquerda de Jean-Luc Mélenchon.

Neste outubro violento, tudo o que pré-candidatos presidenciais da direita fizeram até o momento —em especial Édouard Philippe e Gabriel Attal, ex-primeiros-ministros de Macron— foi se distanciar do atual chefe do Eliseu.

O líder socialista Raphaël Glucksmann levou 48 horas para soltar uma mensagem híbrida, em que critica as depredações, mas cobra respeito às reivindicações. O centro desmorona sob Macron, com forte perda de capital político e falta de confiança do eleitorado. Cabe frisar: uma semana depois da quebradeira, o presidente francês finalmente irá receber os estudantes.

O que se passa na França ecoa na Espanha, Itália, Polônia, Grécia, países com eleições previstas para 2027 e chances de êxito da ultradireita. Mas, hoje, é a turma do liceu que desafia esse cenário.

São de menores de idade 85% das 8.000 detenções dos últimos dias. Os jovens saem às ruas expressando seu desencanto com uma democracia liberal que lhes prometeu um futuro promissor e não entregou. Rejeitam autocratas, mas ainda podem ser cooptados por eles. Eis a encalacrada: algo tem que funcionar para essa geração.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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