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Brasil

O poder oracular da literatura

Há anos venho observando uma capacidade que a escrita de fôlego tem de antecipar certos acontecimentos

O poder oracular da literatura

No meu livro "Batida Só", a protagonista se muda de uma cidade grande para uma menor, onde ela cresceu e onde seus pais moravam. Quando eu estava começando a escrever essa parte do livro, um acontecimento fez com que eu deixasse São Paulo e me mudasse para Curitiba, onde cresci e vivem meus familiares, entrelaçando, sem que eu tivesse planejado, a minha trajetória e a da personagem. O que me deu insumos para a escrita e, por outro lado, um campo ficcional onde pude exercitar certos impactos e frustrações.

Com a minha colega Jeovanna Vieira, o encontro entre vida e obra se deu de forma ainda mais intensa. Seu romance "Toda Caixa Preta é Laranja", tem como narradora uma pilota da Emirates, residente em Dubai. Quando Jeovanna escreveu esse livro, morava no Rio de Janeiro, sem perspectiva alguma de se mudar de país —a escolha da Emirates se deu pela mera potência de seus Airbuses.

Quando a história do livro já estava criada e quase toda escrita, o marido de Jeovanna recebeu uma proposta de trabalho inesperada, especialmente para um professor de jiu-jítsu: dar aula nos Emirados Árabes. Meses depois, a autora pegava um Airbus da Emirates e se mudava para a cidade de residência de sua narradora.

Em "Suíte Tóquio" a premonição se deu fora da narrativa. Quando começava a escrever, ainda insegura sobre a história que ia contar, com medo de que fosse ruim, consagrei Ayahuasca e tive uma visão. "Suíte Tóquio" aparecia coberto de dezenas de borboletas azuis, que disputavam espaço para pousar sobre a obra. Interpretei as Lepidópteras como leitoras, prevendo o sucesso que o livro teria entre o público feminino.

Avancei no trabalho. Quando o romance ficou pronto, recebi a sugestão de capa, onde havia uma borboleta em fundo azul. E o mais acertado nem foi isso: foi o êxito previsto, sendo esse meu livro o de maior sucesso, com um grande número de leitoras, no Brasil e em outros países.

Tirando o caso de Jeovanna, que acredito também se beneficiar de uma enorme coincidência, não vejo as outras situações como premonições no estilo bola de cristal, coisa de "brujas" literais. Vejo-as como resultado de um trabalho que se serve de um acesso profundo e muito fluído ao inconsciente. Tal qual um ímã, a escrita traz pra superfície desejos e percepções que o autor ainda nem sabia ter.

Talvez, sem que eu tivesse consciência, já houvesse dentro de mim o desejo de voltar para Curitiba, latente até que um acontecimento o despertou. Provavelmente, ao consagrar Ayahuasca, eu já sabia, em algum canto do meu cérebro, que tinha uma ideia com excelente potencial narrativo.

Rosa Montero descreve o romance como um ralo, que puxa tudo o que está a volta da vida do escritor para o seu centro. O que sai dessa força centrípeta é magia, mistério e algum autoconhecimento, uma compensação para um trabalho árduo e, muitas vezes, pouco reconhecido por tantos.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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