O 'Nordeste vermelho' visto da prefeitura
A topografia política municipal é bem mais diversa do que sugere a votação presidencial
Em coluna recente critiquei o mito do "Nordeste vermelho" a partir do resultado das eleições para a Câmara dos Deputados. Retomo aqui a questão, mas com o foco agora nas eleições municipais. Lula perdeu 258 mil votos na região entre 2022 e 2026, uma redução de 1,2%. O Nordeste, no entanto, passou a representar uma parcela maior de sua votação nacional: de 38% para 40%. Mas apenas 9,5% das prefeituras nordestinas foram conquistadas pelo PT em 2024.
Mais importante: a distribuição de prefeituras do PT é excepcionalmente assimétrica e descontínua. Embora quase dois terços dos votos válidos no Maranhão tenham sido para Lula, o partido conquistou apenas duas das 217 prefeituras. Menos de 1%. Quem mais elegeu prefeitos no estado foi o PL. Sim, o partido da direita radical. Na Paraíba, apenas uma no conjunto de 223. No Piauí e na Bahia, o PSD liderou. Em Alagoas, o MDB levou 65 das 102 prefeituras, quase dois terços do total. Em Pernambuco, o primeiro lugar está com o PSDB. Na Paraíba e no Ceará, com o PSB.
Bahia, Piauí e Ceará concentram 86,5% das prefeituras nordestinas do partido. Mas apenas Ceará (25,5%) e Piauí (22,3%) exibem percentuais elevados. Na Bahia, 12% dos municípios foram conquistados pelo PT. Nos demais seis estados da região, os percentuais correspondentes são ínfimos ou simplesmente muito pequenos: Paraíba (0,4%), Maranhão (0,9%), Alagoas (1%), Pernambuco (3,3%), Rio Grande do Norte (4,2%) e Sergipe (8%).
O que explica a disparidade? O governador é o protagonista do sistema político estadual. Sua ascensão e queda têm impactos sistêmicos na dinâmica política municipal. No Maranhão, após a eleição de Dino em 2014, o número de prefeituras do PCdoB pulou de cinco para 46 em 2016, e despencou para duas em 2024. No Ceará, após a eleição de Cid Gomes em 2006, o PSB passou de duas para 22 prefeituras, de 1% para 12%. Na Bahia, depois da vitória de Jaques Wagner, o PT saiu de 19 prefeituras em 2004 para 66 em 2008, chegando a 93 em 2012. A queda subsequente e peso do PSD nos municípios baianos parece contradizer o argumento.
A história parece simples: ganhou o governo, ampliou a presença municipal. Mas as lideranças mudam de partido levando consigo parte de suas redes políticas. Por isso, após os ganhos imediatos da eleição para governador sobre a municipal, o efeito torna-se mais complexo e sofre a influência de outros fatores.
Em 2024, Cid Gomes e dezenas de prefeitos ingressaram no PSB. O partido terminou a eleição como a maior força municipal do Ceará, embora o governador fosse petista. Mudou a distribuição entre as legendas, sem que cada prefeitura representasse uma base política inteiramente nova. São duas coisas distintas: a força do partido do governador e a força da coalizão que o sustenta. Elas podem estar próximas, mas estão longe de ser a mesma coisa. Há ainda uma questão de endogeneidade na relação causal: o governo pode ajudar a conquistar prefeitos, mas os prefeitos também ajudam a conquistar o governo.
Assim, Lula mobiliza, sim, sua identidade regional, mas o eleitor e a eleitora nordestinos têm o pé em duas canoas.
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