O mal que os negacionistas praticam continuará vivo depois deles
Até 2018, não havia força política por trás de movimento antivacinação e que nega crise do clima
O mal que os homens fazem continua vivo depois deles; o bem amiúde é enterrado com seus ossos. Não sei qual bem será enterrado com a atual geração de Bolsonaros quando eles descerem ao Sheol. Algum há de haver, nem que seja o mero fato da existência, boa em si mesma porque é dom de Deus. O mal que seguirá vivo depois deles, porém, está abundantemente claro. É bastante provável que suas decisões mais inconsequentes continuem causando morte mesmo quando eles e todos nós não formos mais que cinza.
Primeiro, até os anos pandêmicos, não havia movimento antivacina no Brasil com presença pública e musculatura política suficientemente fortes para influenciar qualquer esfera governamental. Jair Bolsonaro foi o responsável por alterar esse cenário.
Copiando e colando as estratégias da extrema direita global, em especial as de seu grande ídolo estadunidense, ele estimulou a hesitação vacinal com tanto sucesso que, nos últimos anos, qualquer caso de doença grave ou morte repentina de alguém com menos de 50 anos é invadida, nas malditas caixas de comentário das redes sociais, por uma enxurrada de emojis de seringa ou de frases como "foi a picadinha".
Tenho de controlar as ganas de jogar o celular na parede diante desse fenômeno, em parte porque um grande amigo, pessoa pública que sofreu um AVC e está na faixa etária que citei acima, virou alvo recorrente dele. Mas é claro que a raiva que passo é mais do que insignificante diante do efeito sobre milhões de brasileiros, cuja identidade de pertencimento social foi capturada por uma ideia não apenas imbecil, mas que pode custar vidas.
Basta ver as mortes evitáveis por sarampo arquitetadas pelo mais doido e canalha dos Kennedys nos EUA para se dar conta de como a coisa pode piorar. E, sendo essa ideia, repito, parte da identidade grupal do bolsonarismo, não há argumento racional capaz de furar a bolha, como se diz por aí – a não ser que Flávio B. venha a público dizer "Desculpa, meu pai errou e foi moleque". Conte-me o leitor qual é a chance de isso acontecer nas próximas décadas.
Mas há mais. Perdão por me repetir: exatamente o mesmo cenário vale para a negação da mudança climática. Antes deles, nenhum movimento político expressivo do país tinha encampado a ideia de que a crise do clima simplesmente não existe. O máximo que havia era uma dupla de pesquisadores renegados e picaretas (um deles já posto para fora da sua universidade a pontapés, graças a Deus) dando palestras sobre as maravilhas do dióxido de carbono infinito para plateias arrebanhadas pelo agro mais ogro.
Mais uma vez na cola de Trump, o pai começou e o filho continua a afirmar que estamos apenas diante de "eventos cíclicos, que sempre aconteceram". Flávio B. continua balouçando a cortina de fumaça do saneamento básico como o suposto verdadeiro problema ambiental do país (uma óbvia falsa dicotomia, mas eles parecem ser mestres em transformar o óbvio em enigma esfíngico). Que ninguém se engane: o negacionismo climático mata e vai continuar matando durante este século, e talvez no próximo.
Para quem repetia feito um papagaio blasfemo a frase do Evangelho de João sobre conhecer a verdade, a capacidade de erodir o próprio significado da palavra "verdade" é estarrecedora. Esse, e somente esse, é o legado deles, o que quer que aconteça nestas eleições.
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