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O furo do Alasca e o jornalismo profissional

Na véspera das eleições nos EUA, The New York Times revelou tática de candidata democrata para dividir votos do rival

O furo do Alasca e o jornalismo profissional

Na véspera das decisivas eleições de meio de mandato que levaram Donald Trump a perder o controle do Congresso e ver diminuído seu poder pelos próximos dois anos, seus últimos na Casa Branca, o New York Times publicou importante informação exclusiva sobre a corrida senatorial no Alasca.

O jornal revelou que assessores da candidata democrata Mary Peltola recrutaram e fizeram campanha para um homônimo de seu rival republicano, Dan Sullivan, como maneira de dividir os votos no oponente, numa corrida que será decidida por uma margem ínfima.

Até a última atualização deste texto, a estratégia vinha dando certo. Na apuração parcial desta quarta-feira (4), o Sullivan verdadeiro estava 626 votos atrás de Peltola, enquanto o homônimo somava 3.583 votos. Se nenhum candidato superar 50% dos votos de primeira preferência, os votos da segunda preferência serão redistribuídos em 18 de novembro. A Justiça pode entrar no caso.

Kellen Browning, repórter do "Times", ouviu 12 pessoas ao longo de dois meses e reuniu documentos e dezenas de mensagens. Uma das fontes era Elisa Rios, ex-chefe da campanha de Peltola, demitida em agosto. Ela dera entrevistas que podiam ser publicadas. Quando o jornal se preparava para soltar a reportagem, pediu por escrito para retirar tudo o que dissera.

No relato de bastidores publicado no último sábado (31), o jornal explicou por que manteve o depoimento. O restante da apuração corroborava as declarações de Rios. O "Times" contou ao leitor da demissão e do pedido de retirada e publicou as negativas da campanha e do comitê democrata para o Senado. O furo pode ter custado votos decisivos a Peltola. Mas adiá-lo para depois da eleição teria privado os eleitores da informação quando ela mais importava.

Seguindo a tradição da imprensa americana, o conselho editorial do "Times" apoiou Hillary Clinton em 2016, Joe Biden em 2020 e Kamala Harris em 2024. Em 2018, defendeu que os democratas retomassem a Câmara para impor limites a Donald Trump. Na véspera do furo, pediu em editorial que os americanos levassem em conta a atuação de Trump, bastante criticada pelo jornal, ao votar para o Congresso.

Na Folha, seguimos outra tradição. O jornal se abstém de recomendar candidaturas nos pleitos brasileiros. Em 2010, ao reafirmar seus princípios para a cobertura eleitoral, a Folha já usava o "Times" como contraponto. O diário americano havia recomendado Barack Obama. Aqui, o Projeto Editorial prescrevia distância em relação às correntes de interesse e uma cobertura crítica, pluralista e apartidária.

O compromisso é reafirmado a cada eleição presidencial. O último foi editorial publicado na véspera do segundo turno brasileiro, "Democracia e Rigor Fiscal para Reduzir os juros e a pobreza". Nele, a Folha reafirma o compromisso de não recomendar voto em partidos ou nomes, explicando que a opção pelo apartidarismo fortalece a posição de submeter ao crivo da crítica qualquer um que saísse vencedor.

O que nos une ao jornal norte-americano é a primazia do jornalismo profissional. Daí a importância que damos ao furo, à informação de interesse público que a Redação apurou e que o leitor ainda desconhece.

O caso do New York Times é exemplar. Num jornal cuja linha editorial e cuja Redação são marcadamente contrárias a Donald Trump e favoráveis aos democratas, a tarefa de exercer o escrutínio jornalístico sem concessões torna-se mais difícil quando os fatos contrariam suas próprias preferências políticas. Mas não impossível.

Ao trazer à luz uma notícia que poderia favorecer Trump e prejudicar os democratas, o jornal mostrou que o compromisso com a apuração dos fatos deve prevalecer sobre as inclinações partidárias. Afinal, o jornalismo só cumpre sua função quando está disposto a revelar o que incomoda, doa a quem doer —inclusive a si próprio.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mundo
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