Novos livros de história contam a biografia de Deus
Obras partem da constatação de que o Deus único, invisível e universal que hoje nos parece tão familiar tem um passado muito diferente
Deus tem uma biografia? A pergunta pode parecer absurda para quem acredita em um ser eterno, sem começo nem fim. Mas os historiadores não investigam a existência de Deus. Procuram compreender como as sociedades humanas, em diferentes épocas, imaginaram suas divindades. E, nesse sentido, Deus tem uma história fascinante e muito diferente daquela que costumamos conhecer.
Nos últimos anos, algumas obras importantes renovaram essa investigação. Seus autores partem de uma constatação surpreendente: o Deus único, invisível e universal que hoje nos parece tão familiar tem um passado muito diferente. Antes de ser concebido como senhor de todo o universo, Yahweh foi adorado como uma divindade particular, associada a determinados povos e territórios.
Para começar, ele tem um nome representado, na escrita hebraica, pelas quatro consoantes YHWH. Mas de onde veio esse deus?
Em "Yahweh Before Israel" ("Javé Antes de Israel", em português), o historiador norte-americano Daniel Fleming propõe uma resposta original. Durante muito tempo, pesquisadores imaginaram que os israelitas haviam adotado uma divindade cultuada por povos dos desertos ao sul de seu território. Fleming questiona essa explicação.
Sua investigação começa com inscrições egípcias de mais de 3.000 anos que mencionam um grupo associado ao nome Yhw, entre populações de pastores chamadas shasu. Embora não seja possível identificar com segurança esse nome como o de uma divindade, Fleming encontra aí uma pista importante.
Sua hipótese é que o nome Yahweh estava ligado a grupos humanos anteriores à formação de Israel. Em vez de imaginar um deus estrangeiro simplesmente importado pelos israelitas, o autor sugere que a história desse nome ajuda a compreender a própria formação do povo de Israel, composto por populações de origens diversas.
Assim, investigar as origens de Deus significa também investigar como surgiram as comunidades que passaram a adorá-lo.
Mas como esse deus de determinados grupos humanos se tornou o Deus de todo o universo?
É a pergunta central de Thomas Römer, professor do Collège de France, em "A Origem de Javé: o Deus de Israel e seu Nome" (Paulus). Sua tese é que o monoteísmo não surgiu pronto, por uma revelação repentina. Foi o resultado de um longo processo histórico, atravessado por disputas políticas, transformações sociais e acontecimentos traumáticos.
Inicialmente, Yahweh convivia com outras divindades. Ao longo do tempo, incorporou características de deuses como El, figura paterna do antigo panteão cananeu, e Baal, associado às tempestades. Tornou-se a divindade principal dos reinos de Israel e Judá, sem que isso significasse o desaparecimento imediato dos demais deuses.
Um momento decisivo ocorreu quando os babilônios conquistaram Jerusalém, em 587/586 antes de Cristo. Em vez de concluir que Yahweh fora derrotado, os autores bíblicos reinterpretaram a catástrofe: seu deus teria permitido a destruição da cidade como punição pela infidelidade de seu povo.
A derrota política transformou-se, assim, em afirmação de poder divino. Yahweh podia governar não apenas Israel, mas também os destinos dos impérios estrangeiros. O caminho para o monoteísmo universal estava aberto.
Outra pesquisa revela uma transformação igualmente surpreendente: Deus perdeu seu corpo.
Em "God: An Anatomy" ("Deus: Uma Anatomia", em português), Francesca Stavrakopoulou, da Universidade de Exeter, argumenta que o Deus dos antigos israelitas era imaginado como uma figura masculina dotada de corpo, sentidos, desejos e emoções. Tinha rosto, mãos, pés e costas.
A autora vai ainda mais longe: ao comparar passagens bíblicas com representações de outras divindades do antigo Oriente Próximo, sustenta que também se atribuía a Deus uma anatomia sexual masculina. Embora essa última hipótese seja discutida entre especialistas, sua pesquisa mostra quanto a concepção de um Deus inteiramente incorpóreo se distancia de muitas representações religiosas da Antiguidade.
Basta lembrar a passagem bíblica em que Moisés pede para ver Deus. A divindade responde que seu rosto não poderá ser visto, mas permite que Moisés contemple suas costas.
Para Stavrakopoulou, essas descrições não devem ser consideradas como meras metáforas. Elas preservam concepções antigas de uma divindade corporal, semelhante, nesse aspecto, aos demais deuses do Oriente Próximo. Essa imagem foi progressivamente obscurecida por reelaborações religiosas posteriores, que privilegiaram um Deus transcendente e invisível.
Finalmente, Theodore Lewis, em "The Origin and Character of God" ("A Origem e a Personalidade de Deus", em português), propõe que compreender Deus significa estudar não apenas aquilo que se dizia sobre ele, mas também como as pessoas viviam sua religião.
Yahweh era apresentado como guerreiro, rei, juiz, pai e protetor. Esses atributos não constituíam uma personalidade imutável. Expressavam experiências sociais concretas. O rei encontrava na soberania divina um modelo de autoridade; as famílias buscavam proteção; os sacerdotes organizavam o culto; os profetas invocavam a justiça divina para condenar abusos.
O argumento de Lewis é que o caráter de Yahweh se formou na interação entre tradições religiosas, instituições e práticas cotidianas. Por isso, sua história não pode ser reconstruída apenas pela leitura da Bíblia: requer também arqueologia, inscrições, imagens e objetos de culto.
Os quatro livros não oferecem respostas idênticas, nem encerram os debates. Mas convergem em um ponto fundamental: a história de Deus não é apenas a passagem de muitos deuses para um só. É também a transformação de sua identidade, de seu corpo, de seus poderes e de suas relações com os seres humanos.
Para os historiadores, portanto, a pergunta não é se Deus criou os seres humanos. É como os seres humanos, ao longo de sua própria história, construíram e transformaram suas imagens de Deus.
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