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Não se pode esperar normalidade de um processo eleitoral alterado

Sabemos que é preciso esperar pelo resultado final das urnas até que o último voto seja computado

Não se pode esperar normalidade de um processo eleitoral alterado

Para os que prezam a democracia, importante rever uma recente entrevista de Steve Bannon, o estrategista-mor da extrema direita americana, ao programa Sunday Morning, da rede CBS. Foi recebido pelo veterano Ted Koppel, jornalista de TV com prêmios na bagagem.

Bannon professou seu radicalismo, sem rodeios nem pudores. Assumiu que a falsa ideia de que Donald Trump venceu as eleições à Presidência em 2020 continua a ser a crença que impulsiona o Maga. Alertou que o movimento não está disposto a perder as eleições de meio de mandato, em novembro. Daí o jornalista interveio, especulando se tudo será feito para evitar a derrota. Resposta: "Exatamente".

O entrevistado se diz líder de uma iniciativa para que Trump se candidate ao terceiro mandato. Koppel lembrou que isso é vedado pela 22ª Emenda da Constituição, mas Bannon desdenhou. Acha possível "passar um caminhão" por dentro da lei.

A certa altura entregou-se à nostalgia. Foi quando passou a elogiar o trabalho de Leni Riefenstahl, cineasta alemã cujas lentes produziram a figura pública, poderosa e aterrorizante, de Adolf Hitler. Bannon busca fazer o mesmo com Trump.

Esta entrevista revela mais do que bravatas de um homem que atua como "spin doctor" —expressão da moda para consultor de imagem— de políticos influentes, não só nos EUA. Ela traz à tona o desejo de dominação de uma extrema direita que vê a democracia como um sistema político morto; o multilateralismo, como um equívoco histórico; e as constituições, como acidentes de percurso.

Sabemos que é preciso esperar pelo resultado final das urnas até que o último voto seja computado. Só que hoje, nos Estados Unidos, há um jogo antecipado, movimentando múltiplas peças em benefício de um resultado pré-estabelecido. Trump e suas hostes agem neste propósito, valendo-se do que é permitido e não permitido.

Bannon já admitiu que os agentes do ICE circularão nos postos de votação em novembro. Como encaixar a ideia de "caçar imigrantes" no momento em que os cidadãos exercem o direito de voto? A recente batida do FBI na casa da Ilhan Omar, deputada democrata de origem somali, em quarto mandato, serve de aviso para o que pode vir pela frente.

Tina Peters, que em 2020 administrou a votação num condado do Colorado e ganhou fama pelo seu negacionismo sufragista —que já lhe rendeu uma condenação na Justiça—, voltou a circular na Casa Branca pregando mudanças de última hora no sistema eleitoral. Tem repetido que é preciso completar agora o que se deixou de fazer quando o republicano perdeu para Joe Biden.

Trump ainda tenta arrastar para a lama figurões do Partido Democrata. Em 2022, portanto fora da Presidência, processou Hillary Clinton por suposto esquema de fraude eleitoral na campanha de 2016, com o envolvimento russo. Perdeu em dois tribunais, mas nesta semana conseguiu levar o caso à Suprema Corte.

Não se pode esperar normalidade de um processo eleitoral alterado. Elon Musk, que, assim como Bannon, foi afeto, desafeto e hoje novamente um afeto de Trump, despeja bilhões na campanha republicana para garantir o controle do Congresso. Isso o cacifa a disputar a Presidência em 2028, superando nomes como o vice-presidente J. D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio.

Por um capricho do destino, talvez o homem mais rico do planeta tenha que se ver livre de um presidente que adora reinar.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mundo
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